Dia Nacional de Prevenção da Obesidade: por que a cirurgia bariátrica não deve ser vista apenas como último recurso
- Redação Saúde Minuto
- 11/10/2026
- Saúde
Medicamentos modernos e cirurgia podem integrar o mesmo plano de cuidado para uma doença crônica associada ao diabetes, às doenças cardiovasculares, às doenças respiratórias e a alguns tipos de câncer.
A chegada dos medicamentos popularmente conhecidos como “canetas emagrecedoras” ampliou as possibilidades de tratamento da obesidade. Esse avanço, porém, não elimina o papel da cirurgia bariátrica e metabólica. No Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado em 11 de outubro, o cirurgião geral Leonardo Emílio da Silva, professor adjunto de Cirurgia da Universidade Federal de Goiás, destaca a importância de reconhecer a obesidade como doença e avaliar as opções de tratamento no momento adequado.
A obesidade é uma doença crônica, multifatorial e sujeita a recaídas. Seu desenvolvimento envolve fatores biológicos, genéticos, ambientais e sociais. Reduzi-la à falta de vontade reforça o estigma e pode atrasar a procura por tratamento. O cuidado vai além do emagrecimento: busca controlar doenças associadas, preservar a saúde e melhorar a qualidade de vida.
Os dados da Federação Internacional de Diabetes dimensionam essa preocupação. A 11ª edição do seu Atlas, publicada em 2025, estima que 589 milhões de adultos de 20 a 79 anos viviam com diabetes em 2024, aproximadamente um em cada nove. A projeção é de 853 milhões em 2050. Cerca de 90% dos casos são de diabetes tipo 2, para o qual o excesso de peso e a obesidade são importantes fatores de risco. Esses números abrangem o diabetes em geral, não apenas os casos associados à obesidade.
A relação com a mortalidade também merece atenção. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias crônicas e diabetes respondem por 80% das mortes prematuras por doenças crônicas não transmissíveis. A definição considera mortes antes dos 70 anos, e não exclusivamente em adultos jovens.
A obesidade se relaciona com esses quatro grupos, embora a intensidade e os mecanismos dessa associação variem entre as doenças. A OMS estima que um índice de massa corporal acima do ideal contribuiu para 3,7 milhões de mortes por doenças crônicas não transmissíveis em 2021, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças respiratórias crônicas. Reconhecer esses riscos reforça a importância do tratamento, sem transformar o diagnóstico em culpa.
Medicamentos como semaglutida e tirzepatida representam avanços importantes, com efeitos sobre a fome, a saciedade e o metabolismo. Quando indicados, integram um cuidado que também envolve alimentação, atividade física, apoio multiprofissional e acompanhamento contínuo. A própria OMS posiciona essas terapias como parte de uma estratégia abrangente para uma doença que exige cuidado de longo prazo.
A cirurgia bariátrica e metabólica permanece uma opção para pacientes que atendem aos critérios de indicação. A decisão considera a gravidade da obesidade, as doenças associadas, a resposta ao tratamento clínico e os riscos e benefícios individuais. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina atualizou essas indicações em 2025 e reforçou o papel da cirurgia dentro do tratamento multidisciplinar.
Medicamentos e cirurgia podem fazer parte do mesmo percurso terapêutico. Em pacientes selecionados, o tratamento medicamentoso antes da operação pode ajudar na redução de peso e no preparo para o procedimento. Depois da cirurgia, essas medicações também podem ser consideradas quando há necessidade de ampliar o controle da doença.
Pesquisas apresentadas em congressos da Sociedade Americana de Cirurgia Metabólica e Bariátrica apontam nessa direção: o uso prévio dessas medicações pode auxiliar no preparo de pacientes com obesidade extrema e não elimina a possibilidade de obter perda de peso expressiva com a cirurgia. São resultados que devem ser interpretados considerando as limitações dos estudos apresentados.
Para Leonardo Emílio, a ampliação das ferramentas permite construir um cuidado mais individualizado. A cirurgia não deve ser encarada como uma punição pelo insucesso de outros tratamentos, nem adiada automaticamente quando já existe indicação. O uso das “canetas” pode integrar o preparo e o acompanhamento cirúrgico, conforme as necessidades de cada paciente.
Neste 11 de outubro, a mensagem é reconhecer a obesidade como doença, combater o preconceito e ampliar o acesso ao cuidado. O tratamento pode combinar diferentes recursos ao longo do tempo, com um objetivo comum: reduzir os impactos da doença e oferecer mais saúde e qualidade de vida.

