Dor nas costas em jovens: por que esse problema está aparecendo cada vez mais cedo?
- Redação Saúde Minuto
- 05/10/2026
- Saúde
Uso excessivo de telas, sedentarismo e longos períodos sentado podem estar contribuindo para o aumento das queixas de dor lombar entre adolescentes e adultos jovens
Dor nas costas deixou de ser uma queixa associada apenas ao envelhecimento. Cada vez mais, adolescentes e adultos jovens convivem com desconfortos na região lombar, cervical e torácica, muitas vezes relacionados a hábitos que fazem parte da rotina, como horas diante do celular e do computador, longos períodos sentados, pouca atividade física e ergonomia inadequada durante o estudo ou trabalho.
Embora a dor lombar seja mais frequente conforme a idade avança, pesquisas mostram que ela já aparece de forma significativa entre os mais jovens. Um estudo brasileiro publicado no Jornal de Pediatria, que avaliou adolescentes, encontrou prevalência de lombalgia de 46,7%. A pesquisa também identificou associação entre a dor e fatores como uso de celular por mais de três horas ao dia, utilização de notebook e tablet e determinadas posições adotadas durante o uso dos aparelhos.
Outro levantamento, uma revisão sistemática de estudos brasileiros publicada na Revista Paulista de Pediatria, encontrou associações de risco entre tempo de tela e dor lombar em adolescentes. Entre os trabalhos analisados, foram identificadas relações especialmente entre a exposição de pelo menos três horas diárias a celular, tablet ou televisão e a presença de dor lombar inespecífica.
Para o Dr. Luciano Miller, ortopedista e cirurgião de coluna do Einstein Hospital Israelita, a rotina cada vez mais sedentária pode sobrecarregar estruturas que deveriam ser protegidas por uma musculatura fortalecida. “O sedentarismo enfraquece a musculatura em volta da coluna e, com isso, a pressão nos discos e articulações da coluna é maior, aumentando o risco de lesões em situações do cotidiano.”
Segundo o especialista, permanecer muito tempo sentado, principalmente sem uma estrutura adequada de apoio, pode favorecer o aparecimento de desconfortos. O problema não está necessariamente em uma postura específica, mas na permanência prolongada na mesma posição e na falta de movimento ao longo do dia.
O celular também merece atenção. É comum que jovens passem horas com a cabeça inclinada para baixo, alternando entre redes sociais, vídeos, jogos e estudos. Quando esse comportamento se repete diariamente e por períodos prolongados, pode aumentar a sobrecarga sobre a musculatura e contribuir para o surgimento de dores.
A geração que passa horas sentada
A combinação entre estudo, trabalho, transporte e lazer faz com que muitos jovens permaneçam sentados durante grande parte do dia. O cenário pode ser ainda mais preocupante quando esse tempo não é compensado por atividade física regular.
“Além de se movimentar, para evitar dores nas costas, é indispensável prestar atenção na ergonomia no dia a dia e no trabalho”, explica o Dr. Luciano Miller.
O problema também não está restrito à região lombar. Pescoço e ombros podem sofrer com a rotina diante das telas, especialmente quando o jovem trabalha ou estuda por várias horas sem alternar posições ou fazer pausas.
Não é apenas “má postura”
Apesar de ser comum atribuir a dor nas costas exclusivamente à postura, o problema é mais complexo. A dor lombar é considerada multifatorial e pode estar relacionada a diferentes fatores, incluindo sedentarismo, excesso de peso, características ergonômicas, esforço físico, determinadas modalidades esportivas e aspectos psicossociais. Estudos brasileiros com jovens também apontam esses fatores entre os possíveis elementos associados à dor lombar.
Além disso, sentir dor nas costas não significa necessariamente ter uma lesão grave ou uma alteração estrutural na coluna. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 90% dos casos de dor lombar são inespecíficos, ou seja, não estão relacionados a uma doença ou alteração estrutural específica identificável.
No cenário mundial, a dimensão do problema é ainda maior. A OMS estima que o número de pessoas com dor lombar possa chegar a 843 milhões até 2050. Atualmente, a condição é considerada a principal causa de incapacidade no mundo e pode afetar pessoas de qualquer idade.
Quando a dor merece investigação?
Uma dor ocasional após um período prolongado sentado ou depois de uma atividade física pode não representar um problema grave. No entanto, quando o desconforto se torna frequente, persistente ou começa a interferir na rotina, é importante buscar avaliação médica.
Sinais como perda de força, alterações de sensibilidade nas pernas ou pés, dor noturna e mudanças repentinas no controle intestinal ou da bexiga merecem atenção e investigação especializada.
Para prevenir o problema, a recomendação é evitar longos períodos de inatividade, fazer pausas durante o estudo ou trabalho, manter uma rotina de atividade física e observar a ergonomia do ambiente. O objetivo não é encontrar uma “postura perfeita”, mas evitar que o corpo permaneça horas na mesma posição.
“Exercícios são indispensáveis para manter a coluna saudável porque reforçam a musculatura das costas, do glúteo e dos membros inferiores, melhorando a proteção dessa parte do corpo”, destaca o Dr. Luciano Miller.
Embora a dor nas costas possa surgir ainda na adolescência e no início da vida adulta, mudanças simples na rotina podem ajudar a reduzir fatores de risco e evitar que episódios recorrentes passem a fazer parte do dia a dia. A atenção aos hábitos, à atividade física e aos sinais de alerta é importante para preservar a saúde da coluna desde cedo.

