Remédios e suplementos podem fazer mal ao fígado? Veja os sinais de alerta
- Redação Saúde Minuto
- 30/09/2026
- Saúde
O problema pode começar sem sintomas e, em casos mais graves, evoluir para insuficiência hepática. Hepatologista explica quais substâncias merecem atenção e quando procurar ajuda
Quando se fala em algo “natural”, é comum imaginar um produto inofensivo. Mas, para o fígado, nem sempre funciona assim. Medicamentos, suplementos alimentares, fitoterápicos e outras substâncias podem provocar uma reação capaz de lesionar justamente um dos órgãos responsáveis por processar boa parte do que entra no nosso organismo.
O problema tem nome: hepatotoxicidade, ou lesão hepática induzida por drogas. E há um detalhe que merece atenção: o fígado pode começar a sofrer sem dar sinais claros. Em alguns casos, a alteração aparece primeiro em exames de sangue. Em outros, surgem sintomas como cansaço, falta de apetite, náuseas, urina escura, coceira e pele ou olhos amarelados.
Isso não significa, porém, que seja preciso ter medo de tomar medicamentos prescritos. O risco varia de acordo com a substância, a dose, o tempo de uso e as características de cada paciente. E interromper um tratamento por conta própria também pode trazer consequências importantes.
Então, como saber se um remédio está fazendo mal ao fígado? Suplementos e fitoterápicos também podem causar hepatite? Paracetamol e anti-inflamatórios oferecem risco? O fígado consegue se recuperar? E quais sintomas indicam que é hora de procurar atendimento imediatamente?
Para responder a essas e outras dúvidas, o Saúde Minuto conversou com exclusividade com o Dr. Gustavo Pereira, hepatologista, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), médico do Serviço de Gastroenterologia e Hepatologia do Hospital Federal de Bonsucesso, doutor em Medicina pela Universidade de Barcelona e atual presidente do Grupo de Fígado do Rio de Janeiro (GFRJ).
Confira a entrevista.
SM: O que é hepatotoxicidade e o que acontece com o fígado quando ele sofre danos causados por medicamentos, suplementos ou outras substâncias?
Dr. Gustavo Pereira: Hepatotoxicidade é o termo usado para descrever lesões no fígado provocadas por medicamentos, produtos à base de plantas ou suplementos alimentares, quadro conhecido tecnicamente como lesão hepática induzida por drogas. Essa agressão pode variar desde exclusivamente alterações nos exames de sangue até quadros graves de insuficiência hepática aguda.
SM: Quais medicamentos, suplementos, produtos fitoterápicos e itens considerados “naturais” estão mais associados à hepatotoxicidade? Analgésicos e anti-inflamatórios também podem causar o problema?
Dr. Gustavo Pereira: Antimicrobianos, como antibióticos, e suplementos alimentares ou fitoterápicos são as causas mais frequentes no mundo. Nos Estados Unidos, os antimicrobianos lideram os casos, com destaque para a associação amoxicilina-clavulanato, o composto mais comum na maioria dos países ocidentais. Já em países asiáticos, os remédios para tuberculose predominam.
Vale ressaltar que os casos ligados a suplementos e fitoterápicos quase dobraram nos EUA, subindo de cerca de 9%, entre 2004 e 2007, para quase 20%, entre 2010 e 2014. Analgésicos, anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) e o paracetamol, em doses elevadas ou em pessoas mais vulneráveis, são causas conhecidas de lesão hepática.
SM: Quais são os primeiros sintomas da hepatotoxicidade? É possível que o fígado seja lesionado sem que a pessoa perceba nada?
Dr. Gustavo Pereira: É muito comum que a lesão comece sem sintoma algum, sendo descoberta apenas em exames de sangue. Quando os primeiros sinais aparecem, eles costumam ser inespecíficos e fáceis de confundir com outras doenças: cansaço, febre baixa, mal-estar e falta de apetite. Podem surgir também sintomas digestivos, como náuseas, vômitos e desconforto abdominal.
Alguns sinais mais específicos de acometimento hepático incluem urina escura (colúria), coceira no corpo e icterícia, quando a pele e os olhos ficam amarelados, sendo a icterícia o sinal visível mais comum quando a lesão se manifesta.
Em cerca de 25% dos casos, surgem manifestações alérgicas, como manchas na pele, inchaço no rosto ou nos olhos e aumento de gânglios linfáticos, mais comuns com algumas medicações, como carbamazepina, fenitoína e dapsona.
SM: Quais são as consequências da hepatotoxicidade? Ela pode evoluir para hepatite, icterícia, insuficiência hepática, cirrose ou até levar à necessidade de transplante?
Dr. Gustavo Pereira: São extremamente variáveis, indo desde uma alteração passageira e reversível nos exames até hepatite, icterícia, falência rápida do fígado (insuficiência hepática aguda), doença crônica, cirrose, necessidade de transplante ou morte.
O desfecho depende do tipo de lesão, da substância envolvida e das características de saúde de cada pessoa. Ao suspender o produto causador, cerca de 80% dos pacientes se recuperam totalmente em até seis meses.
Apenas cerca de 10% dos casos progridem para insuficiência hepática aguda. Mesmo assim, a lesão hepática induzida por drogas é a segunda maior causa dessa forma grave de doença hepática. A forma crônica, quando as alterações persistem além de seis a 12 meses, ocorre em 8% a 39% dos pacientes. Registros médicos mostram que uma parcela desses pacientes pode, com o passar dos anos, desenvolver cirrose.
SM: Como é feito o diagnóstico? Alterações em exames como TGO/AST, TGP/ALT, GGT e bilirrubina bastam ou outros testes são necessários?
Dr. Gustavo Pereira: Apenas os exames de sangue não são suficientes. Marcadores como TGO, TGP, fosfatase alcalina, GGT e bilirrubinas são o ponto de partida essencial para entender o tipo e a gravidade da lesão, mas o diagnóstico depende de descartar outras causas, como infecções virais e doenças das vias biliares.
Frequentemente, é necessária a realização de exames de sangue adicionais, métodos de imagem, como ultrassom, e, em certos casos, biópsia do fígado. A relação causal costuma ser aferida por meio de escalas médicas, como RUCAM e RECAM, que levam em conta o tempo entre o uso da substância e o início do dano, além da melhora após a suspensão.
SM: Ao suspeitar de toxicidade no fígado, o que a pessoa deve fazer de imediato? Deve parar o remédio ou suplemento por conta própria ou consultar um médico antes?
Dr. Gustavo Pereira: Importante frisar, antes de qualquer coisa, que, se for um caso de automedicação, na verdade a pessoa nem deveria ter iniciado o medicamento. Mas qualquer suspeita exige avaliação médica antes de qualquer interrupção por conta própria.
O paciente não deve suspender o medicamento sozinho sem orientação. A conduta correta depende de qual é o remédio, do motivo pelo qual ele foi receitado e do nível do dano. Além disso, a interrupção abrupta de certas classes, como remédios psiquiátricos ou para o coração, pode trazer graves riscos à saúde.
SM: Existe um tratamento específico ou a principal medida é suspender a substância e acompanhar a recuperação do fígado?
Dr. Gustavo Pereira: Não existe um tratamento universal. A medida principal continua sendo suspender rapidamente o agente agressor, manter cuidados de suporte e monitorar a inflamação e o funcionamento do órgão. Antídotos específicos existem apenas para poucos casos, como o uso de N-acetilcisteína (NAC) para intoxicação por paracetamol.
SM: Quais sinais indicam que a lesão hepática está se tornando grave e exigem atendimento médico imediato? Em quais situações há risco de falência do fígado e necessidade de transplante?
Dr. Gustavo Pereira: A presença de icterícia, com pele ou olhos amarelados, associada a alterações mentais, como confusão, desorientação, sonolência excessiva ou inversão do ciclo de sono, ou a sangramentos e manchas roxas que surgem com facilidade são os principais sinais de alerta de que o quadro pode estar evoluindo para falência hepática aguda.
Qualquer paciente em uso de medicamentos ou suplementos que note esses sintomas deve procurar uma emergência imediatamente, sem esperar por uma consulta de rotina.

