Soltar pum sem querer ou não conseguir segurar o cocô? Entenda o que pode estar por trás disso
- Redação Saúde Minuto
- 25/10/2026
- Curiosidades
Mais comum do que se imagina, a incontinência fecal pode atingir homens e mulheres de diferentes idades. Em entrevista exclusiva, especialista explica as causas, os sinais de alerta e os tratamentos disponíveis.
Imagine estar no trabalho, no trânsito, em uma festa ou simplesmente passeando quando surge aquela vontade urgente de ir ao banheiro. Até aí, tudo bem. O problema é quando não dá tempo de chegar ou quando gases escapam sem que você consiga controlar. Constrangedor? Muito. Mas saiba que essa situação tem nome, explicação médica e, principalmente, tratamento.
Estamos falando da incontinência fecal, um problema que ainda é cercado de vergonha e silêncio. E, ao contrário do que muita gente imagina, não acontece apenas com pessoas idosas. Pode atingir homens e mulheres jovens, surgir após cirurgias, estar associado a doenças neurológicas ou aparecer anos depois de uma lesão sofrida durante o parto.
Em entrevista exclusiva ao Saúde Minuto, a Dra. Lúcia de Oliveira, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e professora da Faculdade de Medicina da UFRJ, responde às principais dúvidas sobre o assunto e explica por que tantas pessoas convivem com os sintomas sem procurar ajuda.
Afinal, o que é incontinência fecal?
Não conseguir segurar as fezes é a manifestação mais conhecida, mas a incontinência também pode envolver a perda involuntária de gases.
Segundo a Dra. Lúcia, a incontinência não é uma doença em si, mas um sintoma que indica alguma alteração nos mecanismos responsáveis pelo controle intestinal.
E esses mecanismos são mais complexos do que parecem. Para segurar gases e fezes, o organismo precisa de uma comunicação eficiente entre os músculos do ânus, os nervos da região, o reto e o cérebro.
Quando essa comunicação falha, o controle pode ficar comprometido.
Teve parto normal? O problema pode aparecer anos depois
Uma informação que muitas pessoas desconhecem é que uma lesão sofrida durante o parto vaginal pode passar despercebida por anos e só começar a provocar sintomas na menopausa.
Isso acontece porque, durante o nascimento do bebê, os músculos responsáveis pelo controle intestinal podem sofrer estiramentos ou rupturas. Em alguns casos, os nervos da região também são afetados.
Entre os fatores associados a essas lesões estão bebês maiores, partos prolongados e situações que provocam maior trauma no períneo, região localizada entre a vagina e o ânus.
A especialista explica que algumas mulheres conseguem compensar essas alterações durante boa parte da vida. Porém, com o envelhecimento e as mudanças hormonais da menopausa, a musculatura pode perder força e uma lesão antiga começar a se manifestar.
Ou seja, mesmo que o parto tenha acontecido há 20 ou 30 anos, ele pode estar relacionado aos sintomas que aparecem agora.
Isso não significa que toda mulher que teve parto vaginal desenvolverá incontinência, mas mostra a importância de investigar o histórico obstétrico.
Prisão de ventre e diarreia também podem piorar a situação
Nem sempre o problema está relacionado a uma lesão muscular.
Quem sofre frequentemente com prisão de ventre e precisa fazer muita força para evacuar também merece atenção. Com o passar do tempo, o esforço excessivo pode contribuir para alterações nos nervos e músculos responsáveis pelo controle intestinal.
A diarreia é outro fator importante. Quando as fezes estão muito líquidas, fica mais difícil segurá-las, especialmente se a musculatura anal já apresenta alguma fraqueza.
É por isso que pessoas com alterações intestinais frequentes podem perceber episódios de escape mesmo sem apresentar uma lesão grave.
Existem doenças que aumentam o risco?
Sim. Algumas condições podem comprometer os nervos, a musculatura ou a sensibilidade da região anal.
Diabetes, doença de Parkinson, esclerose múltipla e acidente vascular cerebral (AVC) estão entre os problemas associados à incontinência fecal.
A Dra. Lúcia também chama atenção para doenças e alterações da própria região intestinal, como prolapso retal, além de cirurgias realizadas para tratar fístulas, fissuras, hemorroidas ou tumores.
Em determinadas situações, tratamentos como radioterapia pélvica e cirurgias abdominais também podem contribuir para alterações intestinais que favorecem episódios de perda involuntária de fezes.
Por que tanta gente esconde o problema?
Vergonha de contar ao parceiro, medo de passar por uma situação constrangedora em público, receio de sair de casa ou de fazer uma viagem longa.
A incontinência fecal pode afetar muito mais do que a rotina intestinal. Ela interfere na autoestima, na vida social, nos relacionamentos e na liberdade de fazer coisas simples.
Segundo a especialista, apenas uma parcela dos pacientes, estimada entre 15% e 45% em levantamentos citados por ela, relata espontaneamente o problema aos médicos.
Muitas pessoas só procuram atendimento quando os episódios se tornam frequentes, exigem o uso de absorventes ou fraldas e começam a comprometer seriamente a qualidade de vida.
Mas não é preciso esperar chegar a esse ponto.
Perder gases ou fezes sem conseguir controlar, mesmo que ocasionalmente, já é motivo para conversar com um especialista.
Tem tratamento? Sim, e nem sempre é preciso operar
A boa notícia é que existem diferentes formas de tratar a incontinência fecal.
O primeiro passo é descobrir o que está provocando os escapes. Como as causas são variadas, não existe um único medicamento ou procedimento capaz de resolver todos os casos.
De acordo com a Dra. Lúcia, muitos pacientes melhoram com medidas relativamente simples, como ajustes na alimentação, mudanças nos hábitos intestinais e medicamentos que ajudam a regular a consistência das fezes.
Em algumas situações, a fisioterapia pélvica especializada também pode fazer parte do tratamento, ajudando a melhorar a força muscular, a coordenação e o controle da região.
Quando os sintomas são mais intensos ou não melhoram com essas estratégias, o médico pode solicitar exames específicos para avaliar o funcionamento dos músculos e identificar possíveis lesões.
Entre eles estão a manometria anorretal, que mede as pressões e avalia o funcionamento da região, e a ultrassonografia endoanal, utilizada para examinar a estrutura dos músculos responsáveis pelo controle intestinal.
Um marca-passo pode ajudar a controlar o intestino?
Pode, e essa é uma das opções para casos mais graves.
A chamada neuromodulação sacral utiliza um pequeno dispositivo que envia estímulos elétricos aos nervos envolvidos no controle intestinal. É uma espécie de marca-passo que ajuda a melhorar a comunicação entre o sistema nervoso e os mecanismos responsáveis pela continência.
Segundo a Dra. Lúcia, estudos sobre essa terapia apresentam taxas de bons resultados superiores a 80% em determinadas séries de pacientes selecionados.
O procedimento é uma das opções recomendadas para pessoas com incontinência fecal importante que não melhoraram com as medidas iniciais.
Outra possibilidade, em casos específicos, é a esfincteroplastia, cirurgia que busca reparar músculos do esfíncter anal que sofreram lesões.
A escolha depende do tipo de alteração, da gravidade dos sintomas e da avaliação especializada.
Dá para prevenir?
Nem todos os casos podem ser evitados, mas alguns cuidados ajudam a proteger o funcionamento intestinal ao longo da vida.
Manter as fezes em uma consistência adequada, tratar episódios persistentes de diarreia, evitar fazer força excessiva para evacuar e procurar atendimento diante de alterações intestinais são medidas importantes.
Para quem passou por parto vaginal, a identificação e o tratamento adequado de possíveis lesões musculares também fazem diferença.
E existe um recado que vale para qualquer idade: não é normal precisar organizar a vida inteira em função do medo de não conseguir chegar ao banheiro.
A incontinência fecal pode ser um assunto delicado, mas não precisa ser um segredo. Quanto mais cedo a causa for investigada, maiores são as possibilidades de encontrar um tratamento que devolva conforto, segurança e liberdade à rotina.
Fonte: Dra. Lúcia de Oliveira, membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia e professora da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

