Seu cérebro está ficando preguiçoso? Vídeos curtos, IA e excesso de telas podem estar mudando sua forma de pensar
- Redação Saúde Minuto
- 01/06/2026
- Neurologia Saúde
Você abre um vídeo. Depois outro. E mais outro. Quando percebe, passou quase uma hora consumindo conteúdos de poucos segundos. Agora some a isso as respostas instantâneas da inteligência artificial, as notificações que não param de chegar e a leitura cada vez mais rara de textos longos.
A pergunta que começa a preocupar especialistas é simples: será que estamos treinando nosso cérebro para pensar menos?
Segundo o neurocirurgião, neurocientista e professor livre-docente da USP, Dr. Fernando Gomes, o cérebro funciona como um músculo. Quanto mais uma habilidade é exercitada, mais forte ela fica. O problema é que a rotina digital atual pode estar favorecendo justamente o contrário.
“O cérebro humano é extremamente plástico. Ele se adapta aos estímulos que recebe diariamente. Quando passamos muito tempo consumindo conteúdos rápidos e fragmentados, podemos reduzir nossa capacidade de manter atenção, refletir com profundidade e sustentar o raciocínio por mais tempo”, explica.
O que os vídeos curtos fazem com o cérebro?
Plataformas digitais são projetadas para prender a atenção oferecendo novidades o tempo todo. A cada vídeo, curtida ou rolagem, o cérebro recebe pequenas doses de recompensa.
O resultado é que fica cada vez mais difícil manter o foco em atividades que exigem mais esforço mental, como estudar, ler um livro, participar de uma reunião ou desenvolver um raciocínio mais complexo.
“O sistema de recompensa cerebral responde muito ao imediatismo digital. Isso pode diminuir a tolerância para atividades mais lentas e cognitivamente exigentes”, alerta o especialista.
Estamos lendo menos. E isso preocupa.
Um dos hábitos mais afetados pela transformação digital é a leitura profunda.
Ler não é apenas acompanhar palavras. Durante a leitura, o cérebro ativa áreas ligadas à memória, imaginação, interpretação, linguagem e pensamento crítico.
“O cérebro da leitura é diferente do cérebro do consumo rápido de estímulos. A leitura profunda exige concentração sustentada e construção de significado”, afirma Dr. Fernando Gomes.
A inteligência artificial pode nos deixar menos inteligentes?
Não exatamente.
Para o neurocientista, o problema não está na tecnologia em si, mas na forma como ela é utilizada.
Quando a inteligência artificial ajuda a aprender, criar ou organizar informações, ela pode ser extremamente útil. O risco surge quando passamos a terceirizar completamente processos mentais que deveriam ser exercitados.
“Muitas pessoas já não memorizam informações, não elaboram raciocínios completos e nem exercitam a interpretação antes de buscar respostas prontas”, observa.
Como manter o cérebro afiado na era digital
A boa notícia é que o cérebro tem enorme capacidade de adaptação. Pequenas mudanças de hábito podem ajudar a preservar funções cognitivas importantes.
Entre as recomendações dos especialistas estão:
- Ler regularmente livros, reportagens e textos mais longos;
- Reduzir o excesso de estímulos digitais;
- Reservar momentos do dia sem telas;
- Praticar atividade física;
- Dormir bem;
- Aprender coisas novas com frequência;
- Exercitar memória e raciocínio;
- Valorizar conversas presenciais;
- Consumir informação com mais profundidade e menos pressa.
“O cérebro precisa de profundidade, não apenas velocidade. O desafio não é abandonar a tecnologia, mas evitar que ela substitua nossa capacidade de pensar de forma complexa”, conclui Dr. Fernando Gomes.
Texto por: Dr. Fernando Gomes