Transar sem se envolver. Será tão simples?
- Redação Saúde Minuto
- 07/08/2026
- Assuntos Delicados
Para a psicóloga e psicanalista Danielle Vieira, pesquisadora das relações contemporâneas, existe um paradoxo interessante acontecendo: enquanto o contato físico ficou mais acessível e natural, permitir que alguém realmente se aproxime emocionalmente pode ter se tornado muito mais difícil.
Na avaliação da especialista, o sexo também ganhou uma nova função na cultura contemporânea. Além de prazer, pode funcionar como validação. Ser desejado, despertar interesse e colecionar experiências alimentam uma lógica em que é preciso parecer sempre disponível, interessante e sexualmente confiante.
É quase como se o corpo tivesse virado uma vitrine e o prazer, uma experiência que precisa ser cada vez mais intensa, nova e interessante.
Sexo casual pode, claro, ser uma experiência legítima de prazer, liberdade e descoberta. O ponto é que aquilo que chamamos de “casual” não necessariamente passa despercebido pelo cérebro.
Durante o desejo, a excitação e o orgasmo, entram em ação diferentes sistemas relacionados à motivação, recompensa, prazer, memória e interação social. Neurotransmissores e hormônios como dopamina, opioides endógenos, ocitocina e vasopressina participam, de maneiras diferentes, desses processos.
Isso não significa que sexo provoque automaticamente paixão, muito menos que um orgasmo faça alguém se apaixonar. A questão é mais sutil.
“O corpo não obedece perfeitamente aos contratos de desapego que fazemos com nós mesmos e com o outro”, explica Danielle.
Em outras palavras: você pode combinar que é “só sexo”, mas isso não significa que toda experiência será emocionalmente neutra.
E se o desapego também for uma defesa?
É aí que a psicanálise entra na conversa.
Para Danielle, parte da valorização contemporânea do desapego pode funcionar como uma maneira de experimentar proximidade sem encarar tudo aquilo que acompanha uma intimidade emocional verdadeira: expectativa, insegurança, medo da rejeição e, principalmente, vulnerabilidade.
Porque desejar alguém de verdade traz um pequeno inconveniente: essa pessoa passa a ter o poder de nos afetar.
E isso significa admitir que nem sempre controlamos o que sentimos, que podemos criar expectativas, sentir falta, ter ciúmes, querer ficar ou descobrir que o outro não quer exatamente a mesma coisa.
Nesse sentido, a performance do “não me apego” pode ser menos sobre não sentir e mais sobre tentar evitar as consequências de sentir.
Pelados, mas emocionalmente vestidos
Talvez esteja aí uma das contradições mais interessantes dos relacionamentos atuais. Nunca mostramos tanto o corpo e, ao mesmo tempo, podemos continuar escondendo justamente aquilo que é mais difícil revelar.
Medos. Carências. Inseguranças. Expectativas. Desejos que vão além daquela noite.
Danielle recupera uma conhecida frase do psicanalista Donald Winnicott para traduzir essa tensão: “É uma alegria estar escondido, mas um desastre não ser achado”.
É possível ter liberdade sexual sem abrir mão da intimidade. Assim como é perfeitamente possível escolher relações casuais sem desejar transformá-las em namoro. A questão levantada pela especialista é outra: quando o desapego deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como proteção contra qualquer possibilidade de vínculo?
Talvez a pergunta mais interessante sobre nossas relações hoje não seja com quantas pessoas estamos transando.
Mas de quantas realmente deixamos que se aproximem.
Fonte: Danielle Vieira, psicóloga e psicanalista, pesquisadora dos afetos e das relações contemporâneas, mestre pela Universidade do Minho (Portugal), fundadora do IIPB e autora de Amor moderno: o nosso mundo evitativo (Editora Labrador).