Pode colocar sal na papinha? E dar doce antes dos 2 anos?
- Redação Saúde Minuto
- 07/11/2026
- Kids Saúde
Pode colocar uma pitadinha de sal na comida do bebê? E aquele bolinho de aniversário, está liberado? Será que um copo de suco de caixinha faz tanto mal assim?
Se você tem filhos pequenos, provavelmente já se fez alguma dessas perguntas. Afinal, entre as recomendações dos pediatras, os palpites da família e as tentações do supermercado, nem sempre é fácil saber o que
oferecer às crianças.
A boa notícia é que alimentação saudável não precisa ser sinônimo de comida sem graça, proibições eternas ou culpa a cada aniversário. Mas existem cuidados importantes, especialmente nos primeiros anos de vida.
Segundo o pediatra e nutrólogo Prof. Dr. Mauro Fisberg, coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA), do Instituto Pensi-Sabará Hospital Infantil, o problema não está simplesmente na existência do sal e do açúcar, mas na quantidade consumida, na frequência e, principalmente, na idade em que esses ingredientes começam a fazer parte da alimentação.
E tem um detalhe importante: o paladar infantil começa a ser construído muito cedo. Por isso, aquilo que parece apenas uma pitadinha de sal ou uma colher de açúcar pode influenciar as preferências alimentares ao longo da infância.
Sal na papinha do bebê: pode ou não pode?
Se a comida do bebê parece sem graça para o paladar dos adultos, não significa que esteja sem sabor para ele.
Nos primeiros meses de introdução alimentar, a criança está descobrindo o gosto natural dos alimentos. Abóbora, batata, cenoura, feijão e tantos outros ingredientes já oferecem uma variedade enorme de sabores.
O sódio, mineral presente no sal, é necessário para o funcionamento do organismo. Participa do equilíbrio dos líquidos, da transmissão dos impulsos nervosos e da atividade muscular. O problema é consumir mais do que o corpo precisa.
Antes de completar 1 ano, a recomendação é não adicionar sal à comida do bebê. O leite materno e os alimentos já fornecem o sódio necessário, e os rins ainda estão em desenvolvimento.
Isso também significa deixar de fora caldos industrializados, temperos prontos, embutidos e sopas de pacote.
E depois do primeiro aniversário? O sal pode começar a fazer parte da alimentação, mas sempre em pequenas quantidades.
Vale lembrar que não estamos falando apenas do sal colocado na panela. Pães, queijos, biscoitos salgados, embutidos e diversos produtos industrializados também contribuem para esse consumo.
Muito sal hoje, pressão alta amanhã?
Pode parecer exagero falar em hipertensão quando o assunto é alimentação infantil. Mas a relação entre consumo excessivo de sódio e aumento da pressão arterial já é conhecida pela ciência.
Uma alimentação muito salgada desde cedo pode favorecer alterações da pressão e aumentar os riscos cardiovasculares ao longo da vida.
Além disso, existe o efeito sobre o paladar. Crianças acostumadas a sabores muito salgados podem apresentar maior dificuldade para apreciar alimentos preparados com menos sal.
A saída não é servir comida sem gosto. É descobrir outros sabores.
Alho, cebola, salsinha, cebolinha, manjericão e orégano ajudam a deixar as preparações mais saborosas. E, quando a família inteira reduz gradualmente o sal, a adaptação costuma ser mais fácil.
E o açúcar? Até quando é preciso evitar?
Aqui, a orientação é ainda mais clara: crianças menores de 2 anos não devem consumir açúcar adicionado.
Isso inclui o açúcar colocado no preparo dos alimentos e aquele presente em produtos como biscoitos, bebidas adoçadas, sobremesas e iogurtes açucarados.
Mas atenção: essa recomendação não significa retirar as frutas da alimentação.
O açúcar naturalmente presente nas frutas inteiras e no leite não deve ser confundido com o açúcar adicionado aos produtos.
Nos primeiros dois anos, o bebê está desenvolvendo suas preferências alimentares. Quanto mais cedo se acostuma com sabores muito doces, maior pode ser sua preferência por eles.
E há outro cuidado: o mel também não deve ser oferecido antes de 1 ano, devido ao risco de botulismo infantil.
Depois dos 2 anos, o doce está liberado?
Não é bem assim.
A partir dessa idade, o açúcar pode aparecer ocasionalmente na alimentação, mas isso não significa que deva fazer parte da rotina.
A Organização Mundial da Saúde recomenda limitar os açúcares livres a menos de 10% das calorias diárias, com benefícios adicionais quando o consumo fica abaixo de 5%.
Na prática, um limite frequentemente utilizado como referência para crianças maiores de 2 anos e adolescentes é de aproximadamente 25 gramas de açúcares adicionados por dia, embora as necessidades variem conforme a idade.
Para ter uma ideia, uma única lata de refrigerante pode conter cerca de 37 gramas de açúcar. Ou seja, uma bebida já pode ultrapassar essa referência.
O açúcar que você não vê também conta
Nem sempre o excesso de açúcar aparece em forma de bala, chocolate ou brigadeiro.
Alguns produtos vendidos com uma imagem de alimentação saudável podem conter quantidades consideráveis de açúcar.
É o caso de determinados iogurtes saborizados, cereais matinais infantis, achocolatados, bebidas prontas e sucos de caixinha.
Por isso, mais importante do que confiar na embalagem colorida ou nas frases publicitárias é conferir a lista de ingredientes e a informação de açúcares adicionados na tabela nutricional.
Um produto com personagens infantis, vitaminas adicionadas ou a palavra “natural” na embalagem não é necessariamente a melhor escolha para a criança.
Muito açúcar deixa a criança agitada?
Essa é uma das crenças mais populares entre pais e mães, especialmente depois de festas de aniversário.
Mas não há evidências científicas consistentes de que o açúcar, isoladamente, provoque hiperatividade nas crianças.
A agitação observada em festas pode estar relacionada a outros fatores, como brincadeiras, estímulos, excitação e alterações na rotina.
Isso não significa que o consumo excessivo de açúcar seja inofensivo.
Entre os principais problemas associados estão as cáries dentárias, o ganho excessivo de peso e o maior risco de alterações metabólicas.
As bebidas açucaradas merecem atenção especial porque permitem consumir grandes quantidades de açúcar rapidamente, sem proporcionar a mesma saciedade dos alimentos sólidos.
E o brigadeiro da festa? Precisa proibir?
Aniversários, passeios e comemorações fazem parte da infância. E a alimentação também tem uma dimensão afetiva e social.
Depois dos 2 anos, o consumo ocasional de doces pode fazer parte dessas experiências, desde que a rotina alimentar seja equilibrada.
O importante é não transformar o doce em recompensa por bom comportamento, prêmio por comer verduras ou solução para qualquer frustração.
Também não é necessário criar uma relação de medo com determinados alimentos.
O que a criança come todos os dias tem muito mais importância do que aquilo que consome ocasionalmente em uma festa.
Cinco atitudes que fazem diferença na rotina
Dê sabor à comida com temperos naturais. Ervas, alho e cebola ajudam a reduzir a necessidade de sal.
Prefira a fruta inteira ao suco. Além de preservar as fibras, ela favorece a mastigação e a saciedade.
Ofereça água como bebida habitual. A partir dos 6 meses, ela deve ser oferecida junto à introdução alimentar.
Reduza sal e açúcar aos poucos na alimentação da família. O paladar pode se adaptar gradualmente a sabores menos intensos.
Evite usar comida como prêmio ou castigo. A criança precisa desenvolver uma relação tranquila com a alimentação.
Menos culpa, mais equilíbrio
No fim das contas, criar bons hábitos alimentares não significa vigiar cada colherada ou transformar a hora das refeições em uma batalha.
Significa oferecer variedade, respeitar as necessidades de cada fase e mostrar, pelo exemplo, que comer bem também pode ser prazeroso.
O sal não precisa dominar o sabor da comida. O açúcar não precisa estar presente em todos os lanches. E um aniversário não precisa virar motivo de culpa.
O segredo está na rotina, não na perfeição.
Artigo do Prof. Dr. Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo, coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares – CENDA, da Instituto Pensi-Sabará Hospital Infantil, e presidente do Departamento de Nutrição da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP).

