O que os estudos significam
- Redação Saúde Minuto
- 15/07/2021
- COVID-19
É útil saber distinguir o que artigos científicos realmente trazem das versões “encaminhadas com frequência” que propalam efeitos curativos
Caros amigos leitores. Nos últimos 15 dias, foram publicados dois estudos sobre covid que chamaram muito a atenção nas redes sociais. Ambos retratam como a ciência trabalha e como ela busca as respostas às dúvidas existentes.
É interessante entender como os estudos científicos se desenvolvem, como obtêm diferentes respostas em cada fase distinta e alguns outros fatores que são levados em conta na avaliação e valorização dos resultados obtidos nas diferentes etapas de cada experimento.
O primeiro artigo foi publicado no dia 15 de junho e discorre sobre as possíveis interações entre a biologia do coronavírus e a ivermectina. É um artigo extenso no qual os pesquisadores fazem uma revisão sistemática da literatura, sem propor o uso do medicamento em qualquer fase da doença. É um artigo técnico que se propõe a atualizar pesquisadores sobre o tema.
A conclusão do estudo é clara e cristalina: “Dado o surgimento de novas variantes de coronavírus e reaparecimento de outras formas da doença, o estudo de medicamentos com outras indicações estabelecidas pode ser digno de atenção”, em livre tradução.
Uma conclusão sem margem a dúvidas e que nenhum pesquisador sério deixaria de levar em consideração. O problema foi que a publicação do tal estudo foi comemorada como o reconhecimento da utilização e dos poderes curativos na ivermectina na atual pandemia.
Ora, não é isso que está escrito no longo texto que descreve mais de 20 pontos teóricos onde a ivermectina poderá ser testada como terapêutica.
Recebi o artigo rotulado como “encaminhado com frequência” e com um comentário anexo que até a prestigiosa revista “Nature”, onde o artigo teria sido publicado, rendia-se às evidências da utilidade do tratamento, conhecida por todos e que não é apenas por um grande conluio da grande imprensa, grandes laboratórios farmacêuticos, médicos e pesquisadores renomados.
O artigo não foi publicado na “Nature”, foi publicado no “The Journal of Antibiotics”, revista associada aos editores da “Nature”, o que é prática comum nas grandes editoras médicas. Essa associação existe para possibilitar que artigos de revisão ou artigos ainda com poucos pacientes, que chamamos de “artigos geradores de hipóteses”, sejam publicados e, caso se tornem de interesse, incentivem a realização de pesquisas mais amplas e definitivas.
Uma das maneiras de se avaliar o grau de relevância de um artigo publicado em determinada revista é uma métrica chamada de “Fator de Impacto”, auditada a intervalos de tempo periódicos. Quanto maior o fator de impacto, mais relevantes são o artigo e a revista onde ele foi publicado. O fator de impacto do “The Journal of Antibiotics” é 2.446, última medida em 2019. O da “Nature” é 42.778, também auditada em 2019.
A gritante diferença dos números demonstra que é impossível que um artigo escrito para ser publicado numa revista menor seja aceito para publicação numa revista médica de grande impacto.
É assim que a informação científica flui. Todos podem e devem publicar suas pesquisas, mas apenas as pesquisas com grande potencial de alterar a prática médica de modo imediato são aceitos pelos grandes jornais médicos.
Todos os pesquisadores sabem destas regras e processos e sabem o quanto é difícil publicar nas revistas de maior renome. Esta é uma prática editorial quase centenária que tenta garantir a seriedade do que é publicado. Durante a vida de um pesquisador ou grupo de pesquisa, a regra é começar publicando em revistas de menor impacto até se atingir a qualidade necessária para a publicação em revistas de maior fator de impacto.
A outra publicação foi uma pesquisa brasileira, pequena, com apenas 25 pacientes com covid no grupo tratado e 25 no grupo placebo, que observou o efeito da nitazoxanida no tratamento da covid moderada. Já é um estudo de fase II, que envolve pacientes, não é uma revisão de literatura, é um estudo que se utilizou de outras pesquisas básicas e estudos de revisão publicados anteriormente.
O resultado, também descrito de modo simples e totalmente imparcial, diz que, “comparado com placebo, a nitazoxanida produziu melhores resultados no componente inflamatório da covid e que essa superioridade deve ser investigada e comprovada em um grupo maior de pacientes”.
O estudo foi publicado na revista “E-Clinical Medicine”, fator de impacto 1.915, última medida em 2020. A revista é associada ao Grupo Lancet, que publica a revista homônima cujo fator de impacto é 60.392, última medida em 2019.
A notícia mais alvissareira é que um estudo de fase III, com grande número de pacientes, já foi iniciado. Oxalá tenhamos os mesmos resultados.
Escrevi este texto, amigo leitor, pensando em você e sua família, que não são profissionais da saúde, mas são pessoas cultas e ponderadas com um papel fundamental nesta tenebrosa tessitura de informações e contrainformações recebidas diuturnamente. Se ajudei você a não comprar um terreno na Lua, mesmo que a preço de ocasião, sinto-me recompensado.
Texto por Iran Gonçalves Jr. | Cardiologista do Hospital Israelita Albert Einstein e responsável pelo PS de Cardiologia do Hospital São Paulo
Coluna publicada originalmente na revista Valor Econômico