Mito ou Verdade?
- Redação Saúde Minuto
- 16/01/2024
- Alergista Saúde Ocular
Alergia à lagrima, existe?
A alergia ocular é uma inflamação alérgica da superfície do olho, causando irritação nas pálpebras, conjuntiva e córnea em casos mais graves. É classificada em conjuntivites leves (conjuntivite perene e sazonal), conjuntivites crônicas (ceratoconjuntivite atópica e vernal) e blefaroconjuntivite de contato (alérgica ou irritativa). A alergia ocular está frequentemente associada a rinite alérgica, asma e dermatite atópica. Os principais alérgenos envolvidos são: ácaros, baratas, mofos, escamas dérmicas de animais e polens de pastagens. Quadros graves de alergia ocular podem comprometer a visão de forma permanente. Ceratocone é frequente nesse grupo.
Os sintomas da alergia ocular são: prurido, avermelhamento, lacrimejamento, produção de muco, fotofobia e dor, que é sempre um sinal de alerta.
Considerando que a alergia ocular inflama a superfície do olho, é necessário lembrar de algumas estruturas envolvidas na produção da lágrima e que podem sofrer danos com essa inflamação:
- Glândulas de meibômio: dispostas verticalmente nas pálpebras superiores e inferiores, são responsáveis por produzir a camada oleosa do filme lacrimal. A película de lágrima presente nos olhos tem uma camada externa oleosa, cujo objetivo é lubrificar a superfície durante o ato de piscar e evitar que o filme lacrimal evapore.
- Glândulas caliciformes: são glândulas presentes na conjuntiva bulbar, responsáveis pela produção de mucinas que compõem a parte mais interna do filme lacrimal, com função de defesa imunológica e barreira.
- Glândulas lacrimais: responsáveis pela produção da parte aquosa do filme lacrimal. Nessa camada, temos nutrientes, sais e fatores de defesa.
Resumindo, o filme lacrimal (essa “lágrima” que mantém nossos olhos úmidos e hidratados) é composto por três camadas: uma interna composta por mucinas, uma intermediária ou aquosa e uma externa que é oleosa. Normalmente, o óleo produzido espalha-se sobre a camada aquosa quando piscamos.
Seguindo o raciocínio acima, a alergia ocular inflama as glândulas de meibômio, que passam a produzir um óleo mais espesso e ficam entupidas, levando à evaporação da fase aquosa do filme lacrimal. Isso aumenta a salinidade lacrimal (aumento da osmolaridade), que por sua vez agride ainda mais as glândulas de meibômio, gerando um ciclo vicioso e grande desconforto ocular. O desconforto gerado por esse mecanismo pode causar hiperemia, prurido e lacrimejamento reflexo, confundindo-se muito com os sintomas da alergia ocular.
O aumento da osmolaridade causa lesão nas células epiteliais e glândulas caliciformes, diminuindo a defesa local e aumentando a penetração dos alérgenos. Ou seja, a alergia ocular altera o funcionamento do filme lacrimal, o que por sua vez piora a alergia.
Vale lembrar que glândulas de meibômio obstruídas inflamam-se e infectam-se. Isso explica o fato de vários pacientes com alergia ocular apresentarem hordéolos e calázio (popularmente chamados de “terçol”).
Essas alterações de superfície, chamadas de “olho seco” ou disfunção do filme lacrimal, podem causar embaçamento visual e sensação de corpo estranho, que adversamente ativam o reflexo de lacrimejamento. Esse lacrimejamento pode irritar e inflamar as pálpebras devido ao seu pH (acidez).
Usar colírios lubrificantes sem conservantes, evitar produtos químicos irritantes nos ambientes e não ficar muitas horas em telas (pois diminui o ato de piscar) são atitudes que podem aliviar os sintomas e a inflamação.
Texto por Dra. Leda das Neves | Alergista e Coordenadora do Departamento de Alergia Ocular da ASBAI