Conheça os riscos do autodiagnóstico do TDAH
- Redação Saúde Minuto
- 22/07/2026
- Saúde
Nunca se falou tanto sobre Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Vídeos curtos, relatos pessoais e testes compartilhados nas redes sociais fizeram com que milhões de pessoas passassem a se identificar com sintomas como distração, procrastinação, impulsividade e dificuldade de concentração. Ao mesmo tempo em que esse movimento contribuiu para reduzir o estigma e ampliar a busca por atendimento especializado, especialistas alertam que o excesso de informações simplificadas pode favorecer interpretações equivocadas e estimular o autodiagnóstico¹.
A discussão ganha força em julho, mês dedicado à conscientização sobre o TDAH. Estimativas internacionais apontam que o transtorno acomete cerca de 5,9% das crianças e adolescentes e aproximadamente 2,5% dos adultos². Apesar disso, ainda permanece subdiagnosticado em muitos casos e frequentemente é confundido com ansiedade, estresse crônico, burnout, depressão, privação de sono e até mesmo com alterações de atenção relacionadas ao estilo de vida contemporâneo².
“O aumento da informação é extremamente positivo porque ajuda a reduzir preconceitos e incentiva muitas pessoas a procurar atendimento. O problema começa quando vídeos curtos, relatos individuais ou testes disponíveis na internet passam a substituir uma avaliação clínica criteriosa. Nem toda dificuldade de concentração é TDAH, assim como nem todo esquecimento representa um transtorno do neurodesenvolvimento”, explica Fabricia Signorelli, Psiquiatra do Ambulatório de TDAH no Adulto da Unifesp e Mestre em transtornos do Neurodesenvolvimento.
Entre o algoritmo e o consultório
Vivemos cercados por notificações, múltiplas telas, excesso de estímulos e jornadas marcadas pela multitarefa. Esse ambiente favorece distrações frequentes e faz com que muitas pessoas se identifiquem com conteúdos publicados nas redes sociais. Entretanto, especialistas ressaltam que o TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento com critérios diagnósticos bem estabelecidos, que não pode ser confirmado por testes on-line ou relatos compartilhados na internet³.
O que é o TDAH
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade, isolados ou combinados, capazes de provocar prejuízos acadêmicos, profissionais, sociais e familiares³. Embora seja mais frequentemente identificado na infância, o transtorno pode persistir na vida adulta e acompanhar o indivíduo ao longo de toda a vida².
Entre os principais sinais estão dificuldade para manter a atenção, esquecimentos frequentes, desorganização, procrastinação, inquietação, impulsividade e dificuldade para concluir tarefas. A intensidade e a combinação desses sintomas variam de pessoa para pessoa³.
Diagnóstico exige avaliação especializada
O diagnóstico do TDAH é essencialmente clínico. Não existe exame de sangue, teste genético ou exame de imagem capaz de confirmar isoladamente o transtorno³. A avaliação deve ser realizada por médico especialista, levando em consideração a história clínica desde a infância, o impacto funcional dos sintomas em diferentes contextos e a investigação de outras condições que podem apresentar manifestações semelhantes, como ansiedade, depressão, transtornos do sono, transtorno do espectro autista (TEA) e altas habilidades/superdotação⁴.
Tratamento vai além da medicação
O tratamento deve ser individualizado e pode incluir psicoeducação, psicoterapia, adaptações escolares ou profissionais, estratégias de organização da rotina e medicamentos quando indicados⁵. O objetivo é reduzir o impacto dos sintomas e melhorar a qualidade de vida, a autonomia e o desempenho funcional do paciente.
Informação é aliada. Autodiagnóstico, não.
Se por um lado as redes sociais democratizaram o acesso ao conhecimento sobre saúde mental, por outro também ampliaram a circulação de conteúdos simplificados, muitas vezes sem respaldo científico¹. Para especialistas, ampliar a conscientização sobre o TDAH passa necessariamente por reforçar que informação de qualidade incentiva a busca por atendimento, mas nunca substitui uma avaliação médica criteriosa.
“Vivemos um momento importante, em que muitas pessoas finalmente encontram explicações para dificuldades que carregam desde a infância. Isso representa um avanço. Mas o diagnóstico de TDAH não nasce nas redes sociais. Ele é resultado de uma avaliação médica cuidadosa, baseada em critérios científicos, capaz de diferenciar um transtorno do neurodesenvolvimento de dificuldades relacionadas ao estresse, ao excesso de telas, à privação de sono ou a outros problemas de saúde. Informação aproxima; diagnóstico exige ciência”, conclui Fabricia Signorelli
Texto por: Dra Fabricia Signorelli

