Fez pré-natal e o bebê nasceu com sífilis? Entenda como isso pode acontecer
- Redação Saúde Minuto
- 17/10/2026
- Saúde
Mesmo com exames e tratamento disponíveis, milhares de bebês ainda são infectados durante a gestação. Infectologista explica onde estão as falhas e como evitar a transmissão.
Você descobre a gravidez, começa o pré-natal, faz exames, acompanha o desenvolvimento do bebê e acredita que está tudo sob controle. Mas sabia que, mesmo seguindo essa rotina, existe o risco de uma infecção passar despercebida e ser transmitida ao seu filho?
É o que pode acontecer com a sífilis, uma infecção sexualmente transmissível (IST) que tem diagnóstico simples e tratamento disponível pelo SUS, mas continua afetando milhares de recém-nascidos no Brasil.
E o mais preocupante: muitas mães de bebês diagnosticados com sífilis congênita chegaram a fazer pré-natal.
Segundo dados preliminares do Ministério da Saúde, apenas no primeiro semestre de 2025 foram registrados 12.130 casos de sífilis congênita em crianças menores de um ano. Entre as mães desses bebês, 83,5% haviam realizado pelo menos uma consulta de pré-natal.
Então, onde está o problema?
De acordo com o infectologista Dr. Paulo Roberto Abrão Ferreira, da Sociedade Paulista de Infectologia (SPI), fazer pré-natal é fundamental, mas não garante, por si só, que a transmissão seja evitada. O diagnóstico pode acontecer tarde, o tratamento pode não ser concluído corretamente ou a mulher pode contrair a infecção novamente durante a gravidez.
Fazer pré-natal não significa estar protegida automaticamente
A resposta está em uma combinação de fatores: diagnóstico tardio, exames que não são repetidos no momento certo, tratamento incompleto e até uma nova infecção durante a gravidez.
“Uma mulher pode estar fazendo o pré-natal e ainda assim existir uma oportunidade perdida de prevenção. O diagnóstico pode acontecer tarde, o tratamento pode não ser concluído adequadamente ou pode ocorrer uma nova infecção depois de um teste inicial negativo”, explica o Dr. Paulo Roberto Abrão Ferreira.
Os números mostram como isso acontece. Entre os casos de sífilis congênita notificados no primeiro semestre de 2025, apenas 60,4% das mães receberam o diagnóstico durante o pré-natal. Em 30,4%, a infecção só foi identificada no momento do parto ou da curetagem.
Ou seja, em muitos casos, a doença foi descoberta quando a oportunidade de prevenir a transmissão durante a gravidez já havia passado.
Mas o que é sífilis congênita?
A sífilis é uma infecção causada por uma bactéria chamada Treponema pallidum, transmitida principalmente por relações sexuais sem preservativo.
Quando uma mulher tem sífilis durante a gravidez, a bactéria pode atravessar a placenta e infectar o bebê. É a chamada sífilis congênita.
E existe uma dificuldade: a gestante pode estar infectada sem perceber.
A sífilis nem sempre provoca sintomas evidentes. Uma ferida pode aparecer e desaparecer espontaneamente, dando a falsa impressão de que está tudo bem. Em outras fases, a infecção pode permanecer silenciosa.
Por isso, não adianta esperar algum sinal para procurar atendimento. Os exames são fundamentais.
Quais são os riscos para o bebê?
A sífilis congênita pode provocar consequências graves, principalmente quando a infecção não é identificada e tratada adequadamente durante a gravidez.
Entre as possíveis complicações estão aborto espontâneo, parto prematuro, morte fetal, alterações nos ossos, problemas de visão e audição e comprometimento neurológico.
Mas há um detalhe que merece atenção: muitos bebês infectados nascem aparentemente saudáveis.
Isso significa que a ausência de sintomas não descarta a doença. Crianças expostas à sífilis durante a gestação precisam ser avaliadas e acompanhadas conforme a orientação médica.
Fiz o exame no começo da gravidez e deu negativo. Preciso repetir?
Sim! E esse é um dos pontos mais importantes da prevenção.
Um resultado negativo no início da gestação não significa que a mulher estará livre da infecção até o parto.
Ela pode adquirir sífilis posteriormente, inclusive se o parceiro estiver infectado e não souber.
Por isso, o Ministério da Saúde recomenda a testagem em diferentes momentos:
- Na primeira consulta do pré-natal, preferencialmente no primeiro trimestre.
- No terceiro trimestre da gravidez, mesmo que o primeiro resultado tenha sido negativo.
- No momento do parto ou em caso de aborto.
Outros testes podem ser necessários se houver suspeita de exposição à infecção.
A boa notícia é que o diagnóstico pode ser feito por testes rápidos, disponíveis gratuitamente no SUS.
Descobri sífilis na gravidez. E agora?
Primeiro, é importante saber que a sífilis tem cura e pode ser tratada durante a gestação.
O tratamento indicado para prevenir a transmissão ao bebê é feito com penicilina benzatina, medicamento que pode ser utilizado na gravidez.
Mas não basta tomar uma dose por conta própria ou interromper o tratamento quando os sintomas desaparecem.
O esquema depende da fase da infecção e precisa ser realizado corretamente, com acompanhamento da equipe de saúde.
Os dados do Ministério da Saúde mostram por que isso merece atenção. Entre as mães de bebês com sífilis congênita notificados no primeiro semestre de 2025, apenas 4,3% tiveram o tratamento classificado como adequado. Em 54,3%, ele foi considerado inadequado e, em 32,3%, não foi realizado.
Esses percentuais se referem às mães dos casos notificados, e não a todas as gestantes com sífilis no país.
E o parceiro? Também precisa fazer exames?
Sim. E essa é uma parte da prevenção que não pode ficar de fora.
Imagine a situação: a gestante descobre a sífilis, faz o tratamento corretamente e, algum tempo depois, volta a ter contato sexual com um parceiro que continua infectado.
Ela pode contrair a doença novamente.
Por isso, as parcerias sexuais precisam ser orientadas, avaliadas e tratadas quando houver indicação.
O uso de preservativos também ajuda a reduzir o risco de novas infecções.
Sífilis congênita pode ser evitada?
Pode. E é justamente por isso que os números preocupam tanto.
Para a Sociedade Paulista de Infectologia (SPI), o combate à sífilis congênita exige atenção a todas as etapas do acompanhamento da gestante, desde a realização dos exames até a conclusão do tratamento.
“Sífilis congênita é evitável. Quando ela acontece, é importante olhar para toda a linha de cuidado: quando a gestante foi testada, quando recebeu o diagnóstico, se iniciou e completou o tratamento e se houve possibilidade de reinfecção”, afirma o infectologista Dr. Paulo Roberto Abrão Ferreira.
O especialista lembra que o objetivo do pré-natal não é apenas realizar consultas, mas garantir que as oportunidades de prevenção sejam aproveitadas.
O recado para quem está grávida ou pretende engravidar é simples: faça o pré-natal, confira se os testes para sífilis foram realizados nos momentos recomendados e, se houver diagnóstico, siga o tratamento até o fim.
Porque cuidar da saúde do bebê começa muito antes do nascimento. E, nesse caso, um exame simples, feito na hora certa, pode fazer toda a diferença.

