Fibrilação atrial pode aumentar em até cinco vezes o risco de AVC, alerta especialista
- Redação Saúde Minuto
- 29/10/2026
- Saúde
No Dia Mundial de Combate ao AVC, celebrado em 29 de outubro, cardiologista explica como a arritmia favorece a formação de coágulos e medidas para prevenir complicações.
Uma alteração nos batimentos cardíacos pode aumentar significativamente o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC). É o caso da fibrilação atrial, a arritmia sustentada mais comum na prática clínica, que pode elevar em até cinco vezes o risco de AVC isquêmico, causado pela obstrução de uma artéria que leva sangue ao cérebro. Segundo a Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial publicada no ano passado, a arritmia aumenta, em média, quatro vezes a chance de AVC e está associada a maior risco de morte e de insuficiência cardíaca. O alerta ganha destaque em 29 de outubro, Dia Mundial de Combate ao AVC, data dedicada à conscientização sobre prevenção, diagnóstico e tratamento da doença.
A relação entre as duas condições está na formação de coágulos sanguíneos. Na fibrilação atrial, os átrios (câmaras superiores do coração) deixam de se contrair de forma eficaz, o que favorece a estagnação do sangue, principalmente em uma pequena estrutura chamada apêndice atrial esquerdo. Nessa estrutura podem se formar coágulos que, ao se deslocarem até o cérebro podem bloquear a circulação e provocar um AVC.
De acordo com a diretriz brasileira, cerca de 15% a 30% de todos os AVCs isquêmicos têm como causa a fibrilação atrial, e os AVCs em pacientes com a arritmia costumam ser mais graves e incapacitantes do que os de outras causas. A condição exige atenção porque pode não apresentar sintomas, dificultando o diagnóstico e o início da prevenção.
“A fibrilação atrial merece atenção porque nem sempre provoca sintomas. Mesmo quando a pessoa não percebe nenhuma alteração, a arritmia pode aumentar significativamente o risco de AVC. Por isso, identificar o problema é fundamental para avaliar os riscos de cada paciente e definir medidas de prevenção”, explica o Dr. Cristiano Faria Pisani, cardiologista, especialista em eletrofisiologia e presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC).
Nova diretriz brasileira orienta a prevenção
Em 2025, a SOBRAC e a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) publicaram a Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, documento que reúne as recomendações mais atuais para o diagnóstico e o tratamento da arritmia no país. A diretriz coloca o paciente no centro das decisões e propõe um cuidado integrado, conduzido por equipe multidisciplinar, organizado em cinco pilares que incluem a prevenção do AVC com terapia antitrombótica, o controle do ritmo ou da frequência cardíaca e o controle dos fatores de risco e das doenças associadas.
“A nova diretriz brasileira reforça que a prevenção do AVC é prioridade no cuidado do paciente com fibrilação atrial. Ela traz ferramentas mais simples para estimar o risco e enfatiza que o tratamento deve ir além do remédio, incluindo o controle da pressão, do peso, do diabetes e do consumo de álcool e a investigação da apneia do sono”, afirma Pisani.
Arritmia pode passar despercebida
A fibrilação atrial acontece quando a atividade elétrica que controla os átrios fica desorganizada, fazendo com que o coração bata de maneira irregular e, em alguns casos, acelerada. Os sintomas podem incluir palpitações, cansaço, falta de ar, tontura e fraqueza. No entanto, algumas pessoas não apresentam sinais perceptíveis e podem ter a arritmia sem saber.
O diagnóstico é feito por avaliação médica e confirmado pelo eletrocardiograma, exame que registra a atividade elétrica do coração. Exames como o Holter e, cada vez mais, dispositivos vestíveis, como relógios inteligentes, podem ajudar a detectar a arritmia, mas alterações identificadas por esses aparelhos devem ser confirmadas por um médico. Identificar essa condição permite implementar o tratamento adequado podendo prevenir a ocorrência do AVC.
AVC também preocupa entre adultos jovens
Embora o risco de AVC aumente com a idade, pessoas mais jovens também podem ser afetadas. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista científica Neurology identificou um aumento de aproximadamente 83% na incidência de AVC entre pessoas de 20 a 54 anos.
“Não devemos esperar o aparecimento de um problema grave para cuidar da saúde cardiovascular. Acompanhar a pressão arterial, controlar o diabetes, manter hábitos saudáveis e investigar alterações nos batimentos cardíacos são medidas importantes para identificar riscos e prevenir complicações”, afirma Pisani.
Tratamento pode reduzir o risco de AVC
Para pessoas com fibrilação atrial, uma das principais estratégias de prevenção é avaliar a necessidade de anticoagulantes, medicamentos que ajudam a evitar a formação de coágulos sanguíneos.
De acordo com a Diretriz Brasileira de Fibrilação Atrial, os anticoagulantes orais diretos são a opção preferencial para a maioria dos pacientes. Para pacientes de alto risco com contraindicação absoluta ou falha da anticoagulação, o fechamento percutâneo do apêndice atrial esquerdo pode ser considerado.
A escolha da terapia depende das características de cada paciente e deve ser feita por um médico. “A anticoagulação é uma das principais ferramentas para prevenir o AVC em pacientes com fibrilação atrial que precisam desse tratamento. No entanto, a indicação deve ser individualizada, considerando os riscos e benefícios para cada pessoa. O paciente nunca deve interromper o anticoagulante por conta própria”, orienta o cardiologista.
Além disso, controlar a pressão arterial e o diabetes, perder peso em caso de sobrepeso ou obesidade, praticar atividades físicas regularmente, investigar a apneia do sono, reduzir o consumo de álcool e não fumar são medidas que contribuem para a saúde cardiovascular e, segundo a diretriz, ajudam a reduzir a recorrência da própria fibrilação atrial. Quem tem a arritmia deve seguir as orientações médicas e manter o acompanhamento periódico.
Conheça os principais sinais de AVC
Reconhecer os sintomas e buscar atendimento rapidamente é fundamental para reduzir o risco de sequelas. Os principais sinais de alerta são:
- Fraqueza ou dormência repentina, principalmente em um lado do corpo;
- Dificuldade para falar ou compreender o que é dito;
- Um lado do rosto aparentemente caído;
- Alterações súbitas na visão, no equilíbrio ou na coordenação motora;
- Dor de cabeça súbita e intensa, sem causa aparente.
Ao identificar qualquer um desses sinais, é necessário acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), pelo telefone 192, e anotar o horário de início dos sintomas. Mesmo que os sintomas desapareçam, a avaliação médica urgente é indispensável.
No Dia Mundial de Combate ao AVC, o alerta é para a importância de identificar e controlar fatores de risco antes que provoquem complicações. No caso da fibrilação atrial, o diagnóstico precoce, a prevenção orientada pela diretriz brasileira e o acompanhamento médico ajudam a proteger a saúde cardiovascular.
Texto por: Dr. Cristiano Faria Pisani, cardiologista, especialista em eletrofisiologia e presidente da Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC).

