5 fake news sobre o glúten que muita gente ainda acredita
- Redação Saúde Minuto
- 27/10/2026
- Saúde
Glúten engorda? Causa inflamação? Alimentos sem glúten são mais saudáveis? Especialistas do Hospital Sírio-Libanês esclarecem os principais mitos sobre a proteína e alertam para os riscos de cortá-la da alimentação sem necessidade.
Você já deixou de comer pão, macarrão ou bolo porque ouviu dizer que glúten faz mal? Ou conhece alguém que decidiu cortar a proteína da alimentação para emagrecer ou acabar com a barriga inchada?
Nas redes sociais, o glúten virou um dos grandes vilões da alimentação. Mas será que ele merece toda essa fama?
Uma revisão internacional de 25 estudos, realizados em 16 países com cerca de 49 mil participantes, mostrou que aproximadamente 10% das pessoas relatam sensibilidade ao glúten. Entre elas, cerca de 40% já haviam retirado a proteína da alimentação, mesmo sem um diagnóstico confirmado.
O problema é que cortar o glúten por conta própria pode dificultar a descoberta de doenças, atrasar tratamentos e até comprometer a qualidade da alimentação.
Segundo Flora M. D’Andréa Marcolino, reumatologista e coordenadora do Centro de Pesquisa Clínica na área de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês, é preciso entender que nem toda reação ao consumo de trigo significa a mesma coisa.
“O primeiro ponto que temos que esclarecer é que não existe uma única doença denominada intolerância ao glúten, e sim três condições relacionadas a ele: doença celíaca, alergia ao trigo e sensibilidade ao glúten não celíaca”, explica.
E, antes de decidir abandonar o pãozinho, vale conhecer cinco informações sobre o glúten que circulam por aí, mas não correspondem à realidade.
1. Glúten causa inflamação em todo mundo
FAKE!
O glúten não é um inimigo universal da saúde. Para a maioria das pessoas, consumir alimentos com essa proteína não provoca uma reação inflamatória prejudicial.
O problema aparece em condições específicas, como a doença celíaca, em que o sistema imunológico reage ao glúten e acaba danificando o intestino delgado.
Portanto, aquela ideia de que todo mundo deveria eliminar o glúten para desinflamar o organismo não tem comprovação científica.
2. Cortar o glúten ajuda a emagrecer
FAKE!
Tirar o pão e o macarrão do prato não é garantia de perder peso. O glúten é uma proteína encontrada no trigo, na cevada e no centeio, e sua presença não determina, por si só, se um alimento engorda ou emagrece.
Algumas pessoas até perdem peso quando adotam uma dieta sem glúten, mas isso geralmente acontece porque passam a consumir menos calorias ou mudam outros hábitos alimentares.
E atenção: um bolo sem glúten continua sendo um bolo. Dependendo dos ingredientes, pode ter tantas calorias, açúcar e gordura quanto a versão tradicional.
3. Tudo o que é sem glúten é mais saudável
FAKE!
Não é porque a embalagem traz a expressão gluten free que o produto é automaticamente melhor para a saúde.
Biscoitos, pães e bolos sem glúten podem conter grandes quantidades de açúcar, gordura e sódio. Alguns também são preparados com farinhas e amidos refinados, oferecendo menos fibras e nutrientes do que as versões convencionais.
Cláudia Goldenstein Schainberg, coordenadora do Núcleo de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês, alerta que retirar alimentos com glúten sem fazer substituições adequadas pode reduzir o consumo de fibras, ferro e vitaminas do complexo B.
Ou seja, o importante não é apenas saber se o alimento contém glúten, mas avaliar sua composição nutricional.
4. Ficou com a barriga inchada depois de comer pão? É intolerância ao glúten
FAKE!
Sentir a barriga estufada depois de comer pão, pizza ou macarrão não significa necessariamente que você tenha algum problema com o glúten.
O trigo contém outras substâncias que podem provocar gases e desconforto abdominal, como os frutanos, carboidratos fermentáveis que podem causar sintomas principalmente em pessoas com síndrome do intestino irritável.
Além disso, comer muito rápido, exagerar nas porções ou consumir refeições ricas em gordura também pode provocar aquela sensação de estufamento.
Por isso, antes de colocar a culpa no glúten, é importante investigar o que realmente está acontecendo.
5. Quem tem doença celíaca sempre sente dor de barriga ou diarreia
FAKE!
Essa é uma das informações mais perigosas, porque pode fazer muita gente deixar de investigar a doença.
A doença celíaca nem sempre provoca sintomas intestinais. Algumas pessoas apresentam anemia, cansaço, aftas recorrentes, alterações na pele ou problemas ósseos. Outras praticamente não percebem nada de diferente.
Mesmo sem sintomas evidentes, o consumo de glúten pode continuar provocando lesões no intestino de quem tem a doença.
Por isso, pessoas com maior risco, como filhos, pais e irmãos de pacientes celíacos, além de indivíduos com diabetes tipo 1 ou determinadas doenças autoimunes da tireoide, devem conversar com o médico sobre a necessidade de realizar exames.
Afinal, quem realmente precisa cortar o glúten?
Embora muita gente use a expressão “intolerância ao glúten” para qualquer desconforto depois de comer pão ou massa, existem diferenças importantes entre as condições.
Doença celíaca: é uma doença autoimune. O organismo reage ao glúten e pode desenvolver lesões no intestino delgado. Nesse caso, a exclusão rigorosa e permanente da proteína é necessária.
Alergia ao trigo: é uma reação alérgica a proteínas presentes no trigo, que não são necessariamente o glúten. Pode causar coceira, urticária, inchaço, vômitos e até dificuldade para respirar. O tratamento envolve evitar o trigo, conforme orientação médica.
Sensibilidade ao glúten não celíaca: pode provocar sintomas como dor abdominal, gases, alterações intestinais e cansaço após o consumo de alimentos com glúten, mesmo sem doença celíaca ou alergia ao trigo. Ainda não existe um exame específico capaz de confirmar essa condição, e outros componentes do trigo também podem estar envolvidos.
Por que não cortar o glúten antes de fazer exames?
Aqui está um detalhe que muita gente desconhece: retirar o glúten da alimentação antes da investigação médica pode atrapalhar o diagnóstico da doença celíaca.
Isso acontece porque, sem a exposição à proteína, os níveis de anticorpos utilizados nos exames de sangue podem diminuir. As alterações no intestino também podem regredir, dificultando a identificação da doença em uma eventual biópsia.
Segundo Cláudia Goldenstein Schainberg, esse é um dos principais riscos de começar uma dieta restritiva por conta própria.
Outro problema é que sintomas como cansaço, gases, inchaço e desconforto abdominal podem estar associados a diversas outras condições, entre elas intolerâncias alimentares, síndrome do intestino irritável, anemia e alterações da tireoide.
A orientação é simples: se você percebe que determinados alimentos provocam desconforto, procure avaliação médica antes de eliminá-los da dieta.
E se você já retirou o glúten, informe isso ao profissional. Não é recomendável voltar a consumi-lo por conta própria apenas para realizar exames.
No fim das contas, o glúten não precisa ser tratado como vilão por quem não tem uma condição que justifique sua retirada. Uma alimentação equilibrada, variada e adequada às necessidades de cada pessoa continua sendo a melhor escolha
Texto por: Flora M. D’Andréa Marcolino, reumatologista e coordenadora do Centro de Pesquisa Clínica na área de Reumatologia do Hospital Sírio-Libanês

