Pólio: 37 anos sem casos no Brasil, mas o vírus ainda circula pelo mundo
- Redação Saúde Minuto
- 24/10/2026
- Saúde
Dia Mundial de Combate à Poliomielite, em 24 de outubro, reforça o alerta: a doença pode causar paralisia para a vida toda e só a vacina protege
Quem tem menos de 40 anos talvez nunca tenha visto uma criança com paralisia infantil. Nem os pais, em muitos casos. O último caso de poliomielite no Brasil foi registrado em 1989, e a doença virou memória distante, ao lado do Zé Gotinha, personagem que ajudou a ensinar uma geração inteira a vacinar. É justamente aí que mora o perigo. No Dia Mundial de Combate à Poliomielite, lembrado neste sábado, 24 de outubro, especialistas alertam que a ausência de casos não significa ausência de risco.
Na avaliação referente a 2025, o Brasil foi classificado em situação de alto risco para a reintrodução do poliovírus. Para a infectologista Flávia Maciel Porto, mestre em Saúde Pública e professora de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi, a explicação é simples: “A pólio não desapareceu do mundo. Enquanto houver circulação do poliovírus em outros países, existe risco de importação por pessoas infectadas, inclusive sem sintomas.”
Um vírus que passa sem ser notado
Esse é um dos pontos mais traiçoeiros da doença. Segundo a médica, a maior parte das infecções é assintomática ou causa sintomas leves, o que favorece a transmissão sem que ninguém perceba. “Além disso, a doença é extremamente contagiosa: uma única introdução em uma população com baixa cobertura vacinal pode causar surtos”, explica.
O que a pólio faz com uma criança
Quando o vírus entra no organismo, ele se multiplica no intestino e pode chegar à corrente sanguínea. Em alguns casos, invade o sistema nervoso e atinge os neurônios responsáveis pelos movimentos. O resultado pode ser a paralisia flácida aguda, que atinge pernas, braços e até os músculos da respiração. Entre as sequelas permanentes estão fraqueza muscular, deformidades e dificuldade para andar. Nos casos mais graves, a paralisia dos músculos respiratórios pode levar à morte.
E o problema pode voltar mesmo depois da recuperação. “Mesmo quem se recupera pode desenvolver, anos depois, a chamada síndrome pós-poliomielite, com dor, fadiga e piora da força muscular”, alerta a infectologista.
A meta de 95% e o risco para todos
Para manter a proteção de toda a comunidade, o Ministério da Saúde estabelece que pelo menos 95% das crianças estejam vacinadas contra a pólio. Essa meta continua sem ser alcançada, e a baixa cobertura vacinal preocupa as autoridades de saúde. Segundo a Dra. Flávia, o número não é aleatório: “A meta de 95% é importante para manter a proteção coletiva, ou imunidade de rebanho, especialmente para doenças altamente contagiosas como a pólio.”
Quando a cobertura fica abaixo disso, surgem “brechas” na população, isto é, grupos de crianças sem proteção suficiente. “Um município abaixo da meta significa que ali existem condições para o vírus circular se for introduzido. O risco não fica restrito àquela cidade”, pontua. A médica lembra ainda que o impacto vai além da pólio, já que baixas coberturas também favorecem o retorno de doenças já controladas, como sarampo e coqueluche.
Da “gotinha” à injeção
Quem se lembra da gotinha vermelha talvez não saiba que ela saiu do calendário. Em novembro de 2024, a vacina oral foi substituída pela vacina inativada, que é injetável, mais segura e usada para manter o país livre da doença. Desde então, crianças de 2, 4 e 6 meses recebem exclusivamente a vacina injetável. Em 2026, o SUS passou a oferecer ainda uma dose de reforço adicional para crianças de 4 anos.
Esqueceu uma dose? Dá tempo de recuperar
Muitos pais deixaram a vacina para depois, e a boa notícia é que não é preciso recomeçar. “Em geral, não precisa recomeçar o esquema vacinal. O que se faz é completar o calendário a partir da dose que falta, respeitando os intervalos mínimos recomendados”, orienta a médica. O ideal é levar a caderneta de vacinação à unidade de saúde para atualização.
A mensagem da especialista a quem está com o esquema atrasado é de acolhimento e urgência ao mesmo tempo: “Nunca é tarde para proteger a criança. Perder uma dose não significa perder a oportunidade.” Ela lembra que a vacina é segura e muito eficaz, e que adiar só aumenta o tempo em que a criança fica vulnerável.

