A caneta faz o cabelo cair?
- Redação Saúde Minuto
- 07/09/2026
- Saúde
Queda, fios mais finos, menos volume e aquele cabelo que parece ter perdido o viço. O uso das chamadas canetas emagrecedoras trouxe uma nova preocupação para quem está perdendo peso rapidamente. Mas o que os medicamentos à base de GLP-1 têm a ver com o cabelo?
A balança comemora, mas, alguns meses depois, o espelho pode entregar uma surpresa nada agradável: mais fios no banho, na escova e no travesseiro. O rabo de cavalo parece mais fino, o couro cabeludo fica mais aparente e aquela sensação de cabelo cheio e volumoso começa a desaparecer.
Os relatos se tornaram tão frequentes que a ciência começou a olhar com mais atenção para a relação entre medicamentos utilizados no tratamento da obesidade, como semaglutida e tirzepatida, e a queda de cabelo.
E não é apenas impressão.
Uma meta-análise publicada em 2026 na revista Diabetes Research and Clinical Practice reuniu nove estudos e dados de 4.114 pessoas tratadas com agonistas do receptor de GLP-1. O resultado chamou atenção: o risco de queda de cabelo foi aproximadamente 3,25 vezes maior entre os usuários desses medicamentos em comparação com placebo. Quando os pesquisadores analisaram apenas estudos com pessoas com sobrepeso ou obesidade, a associação permaneceu significativa.
Mas a caneta faz o cabelo cair?
A resposta é mais complexa do que um simples “sim”.
Até o momento, não está comprovado que medicamentos como semaglutida ou tirzepatida tenham uma ação tóxica direta sobre o folículo capilar. A relação provavelmente é multifatorial e um dos principais mecanismos propostos está justamente relacionado à magnitude e à velocidade da perda de peso, à redução importante da ingestão calórica e, em alguns pacientes, à ingestão insuficiente de proteínas, vitaminas e minerais.
“O que precisamos explicar ao paciente é que existe, sim, uma associação entre esses medicamentos e a queda de cabelo, mas isso não significa necessariamente que a medicação esteja agredindo diretamente o folículo. Em muitos casos, o que observamos é um eflúvio telógeno desencadeado pelo emagrecimento rápido e pelas mudanças metabólicas e nutricionais que acompanham esse processo.”
— Dra. Mônica Felici, dermatologista
O organismo interpreta grandes mudanças de peso como um período de adaptação. Quando há redução importante na disponibilidade energética e nutricional, uma quantidade maior de folículos pode deixar antecipadamente a fase de crescimento, chamada anágena, e entrar na fase de repouso, a telógena. A queda torna-se perceptível algumas semanas ou meses depois.
Esse fenômeno tem nome: eflúvio telógeno.
Ele não surgiu com as canetas emagrecedoras. É uma condição conhecida após dietas muito restritivas, cirurgias bariátricas, doenças, febres, cirurgias, estresse intenso e outras situações capazes de provocar alterações importantes no organismo.
“O cabelo é um tecido metabolicamente muito ativo. Para produzir um fio de boa qualidade, o folículo precisa de energia, proteínas, aminoácidos, ferro e outros micronutrientes. Quando o emagrecimento é muito rápido e a alimentação não acompanha adequadamente as necessidades do organismo, o ciclo capilar pode ser afetado.”
— Dra. Mônica Felici
Uma revisão sistemática publicada em 2026 encontrou justamente o eflúvio telógeno e a alopecia androgenética entre os padrões mais relatados em pessoas que apresentaram queda durante o tratamento com agonistas de GLP-1. Os autores também apontaram a perda rápida de peso como um possível fator importante para explicar o problema.
Há ainda outro ponto relevante: o eflúvio telógeno pode tornar mais evidente uma alopecia androgenética que já existia, mas ainda não era percebida pelo paciente.
“Às vezes, a paciente acredita que desenvolveu uma nova doença capilar depois de começar a emagrecer. Na avaliação dermatológica, descobrimos que havia uma alopecia androgenética inicial e silenciosa. O eflúvio reduz rapidamente a densidade e acaba revelando uma condição que já estava presente.”
— Dra. Mônica Felici
Quanto mais rápido emagrece, maior pode ser o impacto
Esse detalhe ajuda a entender por que algumas pessoas passam pelo tratamento sem perceber praticamente nenhuma mudança no cabelo, enquanto outras sentem redução importante do volume.
Nos estudos que avaliaram a tirzepatida, a queda de cabelo apareceu principalmente associada aos grupos que apresentaram maior redução de peso. Com a semaglutida, os estudos clínicos também registraram alopecia como evento adverso, sobretudo nas doses utilizadas para tratamento da obesidade.
As evidências disponíveis, portanto, sugerem uma associação entre esses medicamentos e queda capilar, mas ainda são necessários estudos para esclarecer quanto desse efeito decorre diretamente da medicação e quanto está relacionado à própria perda de peso e às alterações nutricionais e metabólicas que a acompanham.
E por que o cabelo pode ficar mais fino e sem volume?
Aqui existe uma diferença importante entre fio fino e cabelo menos denso.
Quando muitos fios entram simultaneamente na fase telógena e caem, a pessoa perde densidade. O rabo de cavalo fica menor, o couro cabeludo pode ficar mais visível e há a impressão de que “o fio afinou”.
Mas o afinamento progressivo e verdadeiro do fio também pode indicar miniaturização folicular, característica da alopecia androgenética. Por isso, nem toda queda durante o emagrecimento deve ser automaticamente atribuída à caneta.
“Esse é um ponto fundamental: queda de cabelo não é diagnóstico. É um sintoma. Não devemos simplesmente dizer que é ‘da caneta’ e esperar passar. Precisamos examinar o couro cabeludo, fazer a tricoscopia, avaliar o padrão da queda e investigar possíveis deficiências ou outras doenças associadas.”
— Dra. Mônica Felici
Dá para prevenir?
Nem sempre é possível impedir completamente um eflúvio telógeno, mas alguns cuidados podem reduzir fatores que favorecem a queda.
O emagrecimento deve ser acompanhado por profissionais de saúde e preservar uma ingestão nutricional adequada, especialmente de proteínas. Dependendo da história clínica, também pode ser necessário investigar ferro e ferritina, vitamina B12, folato, vitamina D, zinco e função tireoidiana, entre outros parâmetros definidos individualmente pelo médico.
Isso não significa suplementar indiscriminadamente.
“Tomar vitaminas por conta própria não é a solução. O mais importante é identificar se realmente existe alguma deficiência e corrigi-la. Excesso de determinados micronutrientes também pode ser prejudicial e alguns, inclusive, podem contribuir para queda capilar.”
— Dra. Mônica Felici
O cabelo volta?
Quando se trata de um eflúvio telógeno isolado e o fator desencadeante é corrigido, a tendência é que o quadro seja reversível. O ciclo capilar, entretanto, é lento. Mesmo depois que a queda começa a diminuir, são necessários meses para que os novos fios cresçam e a densidade seja recuperada.
“É importante tranquilizar o paciente, mas também não minimizar o problema. Na maioria dos casos de eflúvio telógeno, existe recuperação, porém cabelo tem tempo biológico. Não conseguimos recuperar em algumas semanas uma densidade que foi perdida ao longo de meses.”
— Dra. Mônica Felici
Também não é recomendável interromper sem orientação médica um tratamento para obesidade simplesmente porque surgiu queda de cabelo. A conduta deve ser individualizada, avaliando a causa da queda, a velocidade do emagrecimento, o estado nutricional e a existência ou não de outra alopecia associada.
“A melhor estratégia não é escolher entre emagrecer ou preservar o cabelo. É fazer o tratamento de forma global: emagrecer com acompanhamento adequado, preservar massa magra, garantir aporte nutricional e, diante de queda persistente ou importante, investigar e tratar precocemente o couro cabeludo.”
— Dra. Mônica Felici
Texto por: Dra. Mônica Felici, dermatologista

