Acordou com o dedão do pé pegando fogo? Pode ser gota
- Redação Saúde Minuto
- 19/08/2026
- Saúde
A dor pode surgir de repente, ser intensa até com o toque do lençol e durar dias. Por trás da crise estão pequenos cristais de ácido úrico que se acumulam nas articulações. E não, a culpa não é só da cerveja e da carne vermelha.
Você vai dormir normalmente e acorda com o dedão do pé vermelho, inchado, quente e doendo tanto que até encostar o lençol incomoda. Parece exagero? Para quem já teve uma crise de gota, não é.
A doença acontece quando cristais de ácido úrico se depositam dentro ou ao redor das articulações, provocando uma reação inflamatória intensa. Pés, tornozelos e joelhos estão entre as regiões mais atingidas, mas o dedão do pé é um dos alvos clássicos.
“A crise pode ser muito dolorosa e incapacitante”, explica a reumatologista Cláudia Goldenstein Schainberg. Segundo ela, o problema está associado ao excesso de ácido úrico no sangue, condição conhecida como hiperuricemia.
Mas existe um detalhe importante: ter ácido úrico alto não significa necessariamente ter gota. Muitas pessoas convivem com níveis elevados sem apresentar sintomas. O problema aparece quando há formação e depósito dos cristais.
Por que dói tanto?
A crise costuma chegar sem muita cerimônia. Dor intensa, vermelhidão, calor e inchaço podem aparecer rapidamente, muitas vezes durante a madrugada.
Quando atinge a articulação da base do dedão do pé, recebe até um nome específico: podagra.
A inflamação provocada pelos cristais pode ser tão intensa que atividades banais, como calçar um sapato ou simplesmente caminhar, tornam-se difíceis.
E ignorar as crises recorrentes não é uma boa ideia. Sem controle adequado, novos depósitos podem se formar e, com o tempo, provocar lesões permanentes nas articulações.
É culpa da cerveja e do churrasco?
Não é tão simples assim.
A alimentação pode influenciar, mas gota não é apenas consequência de “comer e beber demais”, uma ideia que acompanha a doença há muito tempo.
Genética, funcionamento dos rins, obesidade, hipertensão, diabetes e alguns medicamentos, como certos diuréticos, também podem aumentar o risco.
Carnes vermelhas, alguns frutos do mar e bebidas alcoólicas podem contribuir para a elevação do ácido úrico ou desencadear crises em pessoas predispostas. A cerveja merece atenção especial porque reúne álcool e compostos relacionados às purinas, substâncias cujo metabolismo gera ácido úrico.
“Embora muitas vezes seja vista como uma condição ligada a excessos alimentares, a gota é uma doença inflamatória séria, que precisa ser tratada adequadamente para evitar complicações”, afirma Schainberg.
Passou a dor. Acabou o problema?
Aqui está uma das principais armadilhas da gota.
A crise pode desaparecer, mas a doença não necessariamente foi embora.
O tratamento tem dois objetivos diferentes. Durante uma crise, medicamentos como anti-inflamatórios, colchicina ou corticosteroides podem ser prescritos para controlar a inflamação e aliviar a dor.
Já no longo prazo, alguns pacientes precisam reduzir e manter o ácido úrico em níveis adequados. Medicamentos como alopurinol e febuxostate podem ser indicados pelo médico para esse objetivo.
“O tratamento contínuo é essencial, mesmo fora das crises, para evitar recorrências e impedir o acúmulo de cristais que podem comprometer as articulações permanentemente”, explica a reumatologista.
Dá para evitar novas crises?
Em muitos casos, mudanças de hábitos ajudam bastante.
Manter o peso adequado, praticar atividade física, moderar o consumo de bebidas alcoólicas e ter uma alimentação equilibrada são medidas importantes. Quem apresenta outras condições, como hipertensão, diabetes ou doença renal, também precisa mantê-las sob acompanhamento.
Mas a estratégia deve ser individualizada. Dependendo do quadro, mudar a alimentação não substitui o tratamento para controlar o ácido úrico.
A principal mensagem é não esperar a próxima crise para procurar ajuda.
Porque aquele dedão vermelho e dolorido pode até melhorar depois de alguns dias. Os cristais que provocaram o problema, porém, podem continuar por lá.
Texto por: Dra. Cláudia Goldenstein Schainberg

