Dieta pode proteger o cérebro do Alzheimer?
- Redação Saúde Minuto
- 24/08/2026
- Saúde
Estudo associa alimentação saudável a menor risco de demência, inclusive entre pessoas que já apresentavam sinais biológicos relacionados ao Alzheimer
Comer bem não faz diferença apenas para a balança ou para o coração. O cérebro também pode se beneficiar das escolhas feitas à mesa. E, quando o assunto é envelhecimento, o que colocamos no prato ao longo da vida pode ajudar a preservar a memória e outras funções cognitivas.
A boa notícia é que essa proteção não precisa começar aos 60 ou 70 anos. Para o Dr. Sergio Alessandro Santos Alves, geriatra da UBS Jardim Comercial, unidade da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo (SMS-SP) gerenciada pelo CEJAM – Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”, cuidar da alimentação desde cedo pode contribuir para um cérebro mais resistente aos efeitos do tempo.
“Embora os benefícios de hábitos saudáveis fiquem muito evidentes após os 60 anos, as patologias cerebrais começam a se acumular bem antes do surgimento de qualquer sintoma clínico. Por isso, manter uma dieta saudável precocemente é fundamental para construir o que chamamos de resiliência neurológica e modificar o risco de doenças a longo prazo”, explica.
E se o Alzheimer já estiver deixando sinais no organismo?
Um estudo publicado recentemente na revista científica JAMA Network Open trouxe uma pista importante. Pesquisadores do Instituto Karolinska, na Suécia, e da Universidade de Liubliana, na Eslovênia, analisaram 1.865 pessoas com 60 anos ou mais, inicialmente sem demência, acompanhadas por até 15 anos.
Além de avaliar a alimentação dos participantes, os cientistas mediram no sangue biomarcadores relacionados ao Alzheimer e a outros processos de degeneração do cérebro.
O resultado chamou a atenção: uma alimentação de melhor qualidade esteve associada a menor risco de demência até mesmo entre pessoas que já apresentavam alterações nesses biomarcadores. Entre aquelas com níveis elevados de p-tau217, proteína associada à doença de Alzheimer, uma dieta com menor potencial inflamatório esteve relacionada a um risco 29% menor de desenvolver demência a cada aumento de um desvio-padrão na adesão a esse padrão alimentar. O estudo, porém, é observacional e mostra uma associação, não prova que a dieta, sozinha, seja responsável pela redução do risco.
Para o geriatra, a descoberta ajuda a derrubar uma ideia bastante comum.
“O maior erro é achar que exames alterados ou mesmo a predisposição biológica são uma sentença inevitável para a demência. A nutrição prova justamente que é possível mudar esse destino”, afirma.
O que a inflamação tem a ver com o cérebro?
Uma das possíveis explicações está na inflamação crônica de baixo grau. Dietas de pior qualidade podem favorecer processos inflamatórios no organismo, enquanto padrões alimentares ricos em vegetais, frutas, grãos integrais e outros alimentos in natura ou minimamente processados tendem a apresentar menor potencial inflamatório.
E isso interessa ao cérebro. A inflamação é estudada como um dos mecanismos envolvidos na neurodegeneração e no desenvolvimento de demências.
“É uma alimentação baseada em vegetais, nozes e grãos integrais, com quase zero carne processada e açúcar. Ela protege o cérebro porque reduz a inflamação sistêmica”, explica Alves.
Na prática, isso significa dar mais espaço no prato para verduras, legumes, frutas, feijões e outras leguminosas, castanhas, grãos integrais e fontes de gorduras insaturadas, ao mesmo tempo que se reduz o consumo de ultraprocessados, carnes processadas e alimentos ricos em açúcar.
Não existe, portanto, uma fruta, castanha ou semente capaz de funcionar como um “remédio” contra o Alzheimer.
Não existe alimento milagroso
Esse talvez seja um dos recados mais importantes. Comprar um alimento considerado “bom para a memória” não compensa uma rotina alimentar desequilibrada.
“O que realmente faz diferença e contribui para a proteção do cérebro é a construção de um padrão alimentar saudável como um todo, com hábitos consistentes ao longo do tempo”, afirma o geriatra.
E vale lembrar: alimentação é apenas uma peça desse quebra-cabeça. Atividade física, sono adequado, controle da pressão arterial, diabetes e colesterol, além de não fumar e manter uma vida social e intelectualmente ativa, também fazem parte das estratégias associadas a um envelhecimento cerebral mais saudável.
A ciência ainda não descobriu uma fórmula capaz de impedir completamente as demências. Mas as evidências indicam cada vez mais que envelhecer com o cérebro saudável também passa pelas escolhas que fazemos muito antes de a memória começar a falhar.
Texto por: Dr. Sergio Alessandro Santos Alves, geriatra da UBS Jardim Comercial

