Febre: desloque o seu olhar do “quanto está a febre?” para “como está a criança
- Redação Saúde Minuto
- 22/08/2026
- Kids Saúde
Deixo para você, leitor, a escolha do título deste artigo, entre as frases acima. Vamos caminhar juntos sobre este tema.
Durante a maior parte da história humana não existia termômetro clínico disponível. Seu uso só foi difundido amplamente a partir do século XIX. Isso significa que antes de ser um número no termômetro, a febre foi uma experiência sentida pela mão, percebida pelo olhar e interpretada pela imaginação humana. Ela ocupa um espaço no imaginário popular e dá enredo para muitas cenas em filmes e novelas. Quem já não viu uma avó ou mãe colocando panos molhados sobre a testa de uma criança; quem já não ouviu a recomendação para que se dê um banho frio para baixar a temperatura?
A febre é uma das situações que mais assustam pais e familiares. Basta colocar a mão na testa da criança e perceber que ela está quente para surgir a pergunta: “Será que é alguma coisa grave?”. É comum associar-se a febre como a própria doença ou com a gravidade dela.
A febre é uma resposta natural do organismo; especialmente frequente durante as infecções da infância ou em resposta a processos inflamatórios. Ela não é, por si só, uma doença. É um sinal de que o corpo está reagindo a alguma coisa. Nesse sentido, ela funciona como um “sinal de alerta”.
O que é febre?
A temperatura do nosso corpo não é exatamente a mesma durante todo o dia. Ela varia de acordo com a idade, o horário, a atividade física e conforme o ambiente. Chamamos de febre, de modo geral, uma temperatura corporal igual ou superior a 37,5 °C, medida de maneira adequada na região axilar por, no mínimo, 3 minutos. Hoje, há uma boa variedade de instrumentos para a aferição da elevação da temperatura corporal, com variação de sensibilidade entre eles. Conforme o local onde se mede a temperatura (oral, retal, ouvido, testa) muda o valor de referência. A temperatura é variável em cada local onde é medida e, de maneira geral, são aceitas as seguintes faixas de valores para febre: Temperatura retal acima de 38 – 38,3ºC; Temperatura oral acima de 37,5 – 37,8ºC; Temperatura auricular acima de 37,8 – 38ºC
Por que a febre aparece?
Quando o organismo percebe a presença de vírus, bactérias ou outros agentes capazes de provocar uma infecção ou um agravo à saúde, o sistema de defesa é ativado. Entre as várias respostas desencadeadas está a elevação da temperatura corporal. Em nosso cérebro, na região do hipotálamo, se localiza uma estrutura – centro termoregulador – que é uma espécie de ”termostado” que regula a temperatura do organismo e comanda a elevação da mesma. A febre faz parte da estratégia de defesa do organismo. Em algumas situações, como ficar exposto ao sol, permanecer em ambientes fechados e quentes, a temperatura externa do corpo aumenta, entretanto, essa elevação não é mediada pelo “centro termoregulador”. É uma ação externa e não interna ao organismo. Nesse caso, não falamos em febre; dizemos que houve uma hipertermia. Nesse caso, para baixar essa temperatura basta que o indivíduo saia daquele lugar, se desagasalhe ou tome um banho de água morna.
O objetivo do tratamento da febre não deve ser simplesmente fazer o termômetro voltar a marcar 36,5 °C. O mais importante é aliviar o desconforto da criança, manter uma boa hidratação e identificar a causa da febre, quando isso for necessário.
Febre não é sinônimo de doença grave
A febre não é uma doença, mas um sinal de que o corpo está reagindo a agentes infecciosos ou inflamatórios. Tratamento com antitérmicos deve ser considerado apenas quando houver desconforto evidente, como choro intenso, irritabilidade, inapetência, distúrbios do sono ou redução da atividade. Crianças ativas, bem hidratadas e alimentadas podem ser apenas observadas, mesmo com temperatura elevada.
Uma criança com 39 °C que está acordada, conversando, aceitando líquidos e brincando nos intervalos da febre pode estar em uma situação menos preocupante do que outra com temperatura de 38 °C, mas muito abatida, sonolenta ou com dificuldade para respirar. Mais importante do que o número mostrado pelo termômetro é observar como está a criança. O que importa é olhar o conjunto: idade, estado geral, duração da febre, sintomas associados e comportamento da criança.
Orientações Gerais para o manuseio de uma criança com febre
- Manter a criança hidratada. Ofereça líquidos frequentemente. Água, leite materno e outros líquidos adequados à idade ajudam a prevenir a desidratação.
- Manter o ambiente arejado.
- Deixe a criança confortável. Não é necessário cobri-la excessivamente. Roupas leves costumam ser suficientes.
- Observe o estado geral e comportamento da criança. A criança está acordada? Interage? Aceita líquidos? Urina normalmente? Respira bem? Esse é o principal guia para a conduta clínica.
- Meça a temperatura quando necessário. O termômetro é mais confiável do que a mão na testa.
- Uso de métodos físicos não são úteis para redução da temperatura corporal. Evite receitas caseiras agressivas como banhos muito frios, álcool sobre a pele ou métodos semelhantes, pois podem fazer mal e não tratam a causa da febre.
- Não oferecer antibióticos sem orientação médica. Antibióticos, por exemplo, não tratam infecções virais, que são uma das causas mais comuns de febre na infância.
- A febre merece atenção, mas não precisa ser motivo de pânico. Saiba reconhecer os sinais que indicam que é hora de procurar ajuda.
Se a criança está confortável, hidratada e ativa nos intervalos dos episódios febris, nem sempre é necessário medicar apenas para diminuir a temperatura.
- Os medicamentos antitérmicos são utilizados principalmente quando: a febre provoca ou é acompanhada de dor, mal-estar, irritabilidade ou desconforto importante.
- Não é recomendável alternar ou combinar medicamentos por conta própria. Além de aumentar a possibilidade de erros de dose, essa prática nem sempre traz benefício adicional. (Na linguagem complicada da medicina isso é justificado porque o mecanismo de ação de todos antitérmicos é o mesmo: inibem a ação das enzimas cicloxigenases COX1 e COX2 de modo não seletivo. Com isso reduzem a produção da PgE2, a prostaglandina responsável pela elevação da temperatura no termostato hipotalâmico).
- A dose do antitérmico deve ser adequada ao peso da criança e ao medicamento utilizado. No Brasil, os medicamentos indicados incluem paracetamol, dipirona e ibuprofeno, com doses ajustadas por idade e peso.
- O uso de ácido acetilsalicílico (AAS) é contraindicado devido ao risco de Síndrome de Reye.
- Restrições para o uso de antitérmicos como o ibuprofeno, a dipirona e o paracetamol – em pacientes nos quais a asma é induzida por anti–inflamatórios não hormonais.
- Em crianças menores de 1 mês: o paracetamol é o único antitérmico recomendado sendo sua dose adequada segundo a idade gestacional ajustada.
E o medo da convulsão febril?
Esse é um dos maiores temores dos pais. Algumas crianças, geralmente entre 6 meses e 5 anos, podem apresentar uma convulsão associada à febre (Crise febril). Na maioria das vezes, trata-se de uma convulsão simples, que dura poucos minutos e não deixa sequelas. Não é possível saber através de exames laboratoriais ou clínicos, qual é a criança suscetível de apresentar essa clínica. Somente a experiência febril é que mostrará quem é suscetível, entretanto, há uma propensão maior quando há algum antecedente familiar – alguém na família que também já apresentou esse sintoma.
Diante de uma convulsão, a criança deve ser colocada em local seguro, de preferência de lado, sem colocar objetos ou os dedos dentro de sua boca. Se a crise durar mais de cinco minutos, for repetitiva ou houver qualquer dúvida sobre a situação, deve-se procurar atendimento médico de emergência.
Quando a febre exige maior atenção?
Estas situações merecem avaliação médica mais rápida:
- bebês muito pequenos, especialmente aqueles com menos de 3 meses de idade e temperatura de 38 °C ou mais;
- criança muito sonolenta, difícil de despertar ou que não reage normalmente;
- dificuldade para respirar;
- manchas roxas ou avermelhadas na pele que não desaparecem à pressão;
- rigidez da nuca (dificuldade de fletir a cabeça para baixo);
- convulsão;
- dor intensa ou persistente;
- vômitos repetidos;
- sinais de desidratação, como pouca urina, boca muito seca ou ausência de lágrimas;
- febre que persiste por vários dias ou que desaparece e depois retorna;
- criança com doença crônica importante ou imunidade comprometida.
- A criança permanece apática, muito irritada ou com choro persistente, mesmo após normalização da temperatura.
- Há sintomas graves associados, como dificuldade respiratória, confusão, vômitos persistentes, dor intensa ou alterações neurológicas
- temperaturas ≥39,0C merecem uma atenção especial em menores de 3 meses com leucocitose ou aumento da proteína C reativa nos achados do Hemograma (risco de bacteremia).
Texto por: Dr. Fernando MF Oliveira – Médico pediatra, Coordenador do Blog Pediatra Orienta da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP)

