IA, reserva cognitiva e o futuro da demência: a tecnologia pode proteger ou enfraquecer o cérebro?
- Redação Saúde Minuto
- 18/03/2026
- Bem-estar Curiosidades Saúde
A inteligência artificial já escreve textos, organiza rotinas, sugere caminhos e até responde por nós. Prática, rápida e cada vez mais presente, ela promete facilitar a vida em praticamente todos os aspectos.
Mas existe um ponto que começa a preocupar especialistas: ao terceirizar funções mentais para a tecnologia, estamos estimulando ou “poupando demais” o cérebro?
Para o doutor José Marcos Vieira de Albuquerque Filho, neurologista e neuropediatra, com atuação no Hospital São Paulo da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), no Grupo de Maternidades Santa Joana e preceptor das residências de Neurologia e Pediatria no Hospital Municipal M’Boi Mirim, esse impacto já é perceptível.
“O uso excessivo de tecnologia, em particular da IA, pode e vai impactar negativamente a atividade cerebral, seja por hiperestímulo de áreas específicas ligadas à recompensa seja por baixo estímulo em outras ligadas à manutenção da concentração.”, disse.
Um relatório da The Lancet Commission on Dementia Prevention, publicado na revista The Lancet em 2020, aponta que cerca de 40% dos casos de demência estão associados a fatores de risco modificáveis, como sedentarismo, isolamento social, baixa escolaridade, depressão e hipertensão não controlada. Em análises mais recentes, essa estimativa pode chegar a 45%.
No cotidiano, essa mudança se traduz em um comportamento cada vez mais dependente da tecnologia. “Os efeitos são notáveis em particular em quem faz o uso diário, pois delega-se a resolução de problemas simples ou mesmo mais complexos cada vez mais à IA.”, complementa o doutor José Marcos.
Desuso mental e o fenômeno do “brain rot”
O neurologista compara o cérebro a outros órgãos do corpo para explicar os efeitos do desuso. “O corpo humano foi feito para o movimento, isso vale para todos os órgãos. Por exemplo, músculo parado atrofia, ossos sem sofrer carga ficam porosos.”
Nesse contexto, o doutor aponta um fenômeno recente associado ao uso excessivo de tecnologia. “Com o cérebro o efeito do desuso é ainda mais pronunciado, levando recentemente ao termo ‘Brain Rot’, literalmente uma deterioração cerebral decorrente do uso excessivo de tecnologia.”
Outro ponto de atenção vem de estudos sobre cognição populacional. Pesquisas conduzidas por instituições como a University of Oslo, na Noruega, identificaram uma tendência recente de queda em testes de QI em algumas populações, fenômeno conhecido como reversão do Efeito Flynn.
Estilo de vida digital e risco de demência
O ponto de atenção, segundo o neurologista, está na forma como a tecnologia molda hábitos. “A baixa escolaridade, baixo engajamento social, pouca atividade física são fatores de risco modificáveis para síndromes demenciais, em particular o Alzheimer. Portanto, tecnologias e mudanças que incorram no aumento do risco para essas situações podem, em tese, aumentar o risco de demência. Já vivenciamos uma queda global no QI, ainda que com ressalvas a se considerar está a única medida de inteligência. Trata-se de um dado alarmante para o futuro.”, complementa.
Reserva cognitiva: a “poupança” do cérebro
Para entender o impacto a longo prazo, entra em cena o conceito de reserva cognitiva.“A reserva cognitiva funciona literalmente como uma poupança que você junta durante a vida e pode ir ’gastando’ na sua aposentadoria. Se você não juntar ou se você gasta muito ela acaba cedo”
Fatores que levam, por exemplo, a “gastar” a reserva cognitiva cedo:
– traumatismos cranianos de repetição;
– doenças cerebrais adquiridas;
– uso excessivo de álcool, drogas, dentre outros.
“A forma de aumentar sua reserva cognitiva é através do estudo, do engajamento e do aprendizado não verbal”, ressalva o doutor José Marcos.
IA também pode ser aliada da saúde cognitiva
Apesar dos riscos, o neurologista pondera que a inteligência artificial também oferece benefícios importantes, especialmente na área da saúde. “Como todas as tecnologias humanas, a IA tem seu uso positivo especialmente em processos de automação, gerenciamento hospitalar. Seu papel pode vir a ser positivo na reabilitação cognitiva de pacientes com lesões cerebrais ou no auxílio de funções do dia a dia em pacientes com problemas cognitivos ou mentais.”, comenta.
O caminho: equilíbrio no uso da tecnologia
Por fim, o doutor José Vieira aponta que o desafio não é evitar a tecnologia, mas saber utilizá-la.“A virtude da temperança, já há milênios disseminada por filósofos e religiosos, deve ser o norte também no uso equilibrado das tecnologias. Somente assim conseguiremos aproveitar seus benefícios sem sofrer grandes malefícios.”, conclui.
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6042097/