Tem endometriose? Estudo aponta risco 46% maior de diabetes tipo 2
- Redação Saúde Minuto
- 17/09/2026
- Saúde
Pesquisa com quase 3 milhões de mulheres encontrou uma associação que vai além da dor e da fertilidade. E um detalhe chamou ainda mais a atenção: a relação foi mais forte entre mulheres sem obesidade.
Quando se fala em endometriose, é quase automático pensar em cólicas intensas, dor durante a relação sexual, alterações menstruais e dificuldade para engravidar. Mas uma nova pesquisa traz um alerta que amplia essa conversa: a doença também pode estar relacionada à saúde metabólica da mulher.
Um estudo publicado na revista científica Diabetologia acompanhou dados de quase 3 milhões de mulheres e encontrou uma associação importante: aquelas com endometriose apresentaram risco 46% maior de desenvolver diabetes tipo 2 em comparação às mulheres sem a doença.
Antes de se assustar, uma informação é fundamental: isso não significa que a endometriose cause diabetes. O estudo encontrou uma associação entre as duas condições, mas ainda não é possível afirmar que uma seja responsável pelo aparecimento da outra.
Mesmo assim, os resultados levantam uma pergunta interessante: será que a endometriose pode afetar o organismo muito além do sistema reprodutivo?
E não foi só entre mulheres com obesidade
Esse é um dos pontos mais curiosos da pesquisa.
Obesidade e excesso de peso são fatores bastante conhecidos quando falamos em diabetes tipo 2. Mas, no estudo, a associação entre endometriose e diabetes foi mais forte justamente entre as mulheres sem obesidade.
Para a endocrinologista Maira Brandão, do Grupo Santa Joana, esse resultado ajuda a ampliar a maneira como a endometriose é enxergada.
Segundo a especialista, trata-se de uma doença inflamatória crônica e, por isso, o acompanhamento da mulher não deveria necessariamente ficar restrito aos sintomas ginecológicos. Os pesquisadores ainda precisam descobrir o que está por trás dessa relação, mas o trabalho abre espaço para olhar também para a saúde metabólica dessas pacientes.
O que a inflamação tem a ver com isso?
Essa pode ser uma das peças do quebra-cabeça.
A endometriose está relacionada a processos inflamatórios e alterações imunológicas e hormonais. E uma das hipóteses levantadas é justamente que essa inflamação persistente possa interferir em mecanismos envolvidos no metabolismo.
Mas ainda é cedo para bater o martelo.
Como explica Maira, a pesquisa não permite dizer que a inflamação causada pela endometriose seja responsável pelo desenvolvimento do diabetes. Ela é uma das possíveis explicações que agora precisam ser investigadas.
Antes da menopausa, o número chamou ainda mais atenção
Outro resultado interessante apareceu quando os pesquisadores separaram as mulheres de acordo com a menopausa.
Entre aquelas que ainda não tinham chegado à menopausa, ter endometriose esteve associado a um risco 55% maior de desenvolver diabetes tipo 2.
Depois da menopausa, essa associação foi bem mais fraca.
E houve mais uma descoberta: o risco variou de acordo com o tipo e a localização da endometriose.
Nas mulheres com endometriose superficial, o aumento relativo do risco chegou a 67%. Na endometriose ovariana, foi de 61% e, na profunda, de 45%.
Esses números não significam que uma mulher com endometriose superficial tenha 67% de chance de desenvolver diabetes. Eles representam um aumento relativo do risco em comparação ao grupo sem endometriose, uma diferença importante para não transformar os resultados em motivo de pânico.
Tenho endometriose. Preciso fazer exame para diabetes?
Não significa que você precise sair correndo para o laboratório.
O estudo não estabelece que toda mulher com endometriose deva automaticamente passar por um protocolo especial de rastreamento de diabetes.
Mas ele traz um bom motivo para conversar sobre saúde de forma mais ampla durante as consultas.
Histórico familiar de diabetes, pressão arterial, alimentação, atividade física, alterações anteriores da glicemia, peso e histórico de diabetes gestacional continuam sendo informações importantes para que o médico avalie individualmente cada mulher.
E há uma razão para não ignorar essa conversa: o diabetes tipo 2 pode permanecer silencioso por bastante tempo. Alterações na glicemia podem existir antes de surgirem sintomas mais perceptíveis.
Endometriose não termina no útero
Talvez essa seja a mensagem mais importante da pesquisa.
Durante muito tempo, a endometriose foi enxergada principalmente pela dor, pela menstruação e pela fertilidade. Hoje, sabemos que é uma doença complexa, que merece um olhar mais amplo sobre a saúde da mulher.
A nova pesquisa acrescenta mais uma questão a ser investigada: qual é a relação entre endometriose, inflamação e metabolismo?
Ainda não temos todas as respostas. E os próprios pesquisadores reconhecem limitações do estudo e a necessidade de novas investigações.
Para quem tem endometriose, portanto, a palavra não é medo. É atenção.
Manter o acompanhamento médico, conhecer seus fatores de risco e perguntar se a glicemia também merece ser acompanhada pode ser uma maneira simples de transformar uma nova descoberta científica em cuidado.
Texto por: Dra. Maira Brandão, endocrinologista do Grupo Santa Joana

