Qual a relação da alimentação com a fertilidade?
- Redação Saúde Minuto
- 16/09/2026
- Nutrição Saúde
Quando o assunto é fertilidade, a alimentação pode ter um papel mais importante do que muitas pessoas imaginam. Embora nenhum alimento isolado seja capaz de garantir uma gravidez, a qualidade da dieta influencia o metabolismo, a produção hormonal, a inflamação e o estresse oxidativo; fatores que podem interferir na saúde reprodutiva de homens e mulheres.
Para entender melhor essa relação, conversamos com os nutricionistas Fernando castro e Thays Pomini, que explicaram como a alimentação e o equilíbrio metabólico podem contribuir para a saúde reprodutiva.
A alimentação realmente pode influenciar a fertilidade de homens e mulheres?
Sim. A alimentação influencia a fertilidade por meio de diversos mecanismos, principalmente pela sua relação com o metabolismo energético, a produção hormonal, a inflamação e o estresse oxidativo.
Uma alimentação desequilibrada pode favorecer resistência à insulina, alterações no metabolismo das gorduras, inflamação e aumento do estresse oxidativo. Esses fatores podem interferir tanto na ovulação quanto na produção, concentração, motilidade e integridade dos espermatozoides.
No entanto, é importante lembrar que a fertilidade depende de diversos fatores, como idade, reserva ovariana, alterações anatômicas, questões genéticas e hormonais. A alimentação atua como parte do conjunto de condições que favorecem a saúde reprodutiva.
Existe uma dieta considerada mais favorável para quem está tentando engravidar?
Não existe uma “dieta da fertilidade” capaz de garantir uma gravidez. O mais importante é adotar um padrão alimentar que favoreça a saúde metabólica e forneça os nutrientes necessários para o funcionamento adequado do organismo.
Um padrão semelhante à dieta mediterrânea pode ser interessante, priorizando frutas, verduras, legumes, feijões, cereais integrais, peixes, ovos, carnes magras, azeite, castanhas e sementes, além de reduzir o consumo de carnes processadas e ultraprocessados.
Esse padrão também pode ser adaptado à alimentação brasileira. Arroz com feijão, verduras, ovos, sardinha, frutas da estação e azeite, por exemplo, podem fazer parte de uma alimentação equilibrada sem a necessidade de alimentos sofisticados ou de alto custo.
O excesso de peso ou o baixo peso podem prejudicar a fertilidade?
Sim. Tanto o excesso quanto a falta de peso podem comprometer a função reprodutiva, já que o organismo precisa de equilíbrio energético e metabólico para que a reprodução aconteça adequadamente.
O excesso de gordura corporal, principalmente abdominal, está associado à resistência à insulina, inflamação e alterações hormonais. Nas mulheres, isso pode comprometer a ovulação e aumentar a ocorrência de ciclos irregulares. Nos homens, a obesidade pode estar relacionada à redução da testosterona, aumento do estradiol e alterações na qualidade do sêmen.
Por outro lado, uma restrição energética excessiva e o baixo peso também podem alterar a produção hormonal e prejudicar a função reprodutiva. Em mulheres, a baixa disponibilidade de energia pode levar à interrupção da menstruação.
O consumo excessivo de açúcar e ultraprocessados pode afetar a saúde reprodutiva?
Pode, principalmente quando esse padrão alimentar é mantido por muito tempo. O excesso de açúcar e de alimentos ultraprocessados pode favorecer ganho de peso, resistência à insulina, inflamação de baixo grau e estresse oxidativo.
Esses fatores podem interferir tanto na ovulação quanto na qualidade dos espermatozoides. Isso não significa que seja necessário eliminar completamente doces ou alimentos ultraprocessados, mas é importante evitar que eles sejam a base da alimentação.
Quais alimentos podem contribuir para a qualidade dos óvulos e dos espermatozoides?
A alimentação pode ajudar a melhorar o ambiente em que óvulos e espermatozoides amadurecem, especialmente por meio da redução do estresse oxidativo.
Entre as opções estão peixes gordurosos, como sardinha, cavala e salmão, fontes de ômega-3; oleaginosas, especialmente as nozes; frutas e vegetais coloridos, ricos em compostos antioxidantes; leguminosas e cereais integrais, que contribuem para o controle glicêmico; e azeite de oliva extravirgem.
Também há um mito relacionado à soja: o consumo alimentar habitual de soja não demonstrou prejudicar a fertilidade masculina. Revisões disponíveis não encontraram efeito adverso das isoflavonas sobre a testosterona nesse contexto.
O consumo de álcool e excesso de cafeína pode interferir nas chances de engravidar?
O consumo excessivo de álcool merece atenção. Ele está associado a alterações hormonais, piora de parâmetros seminais e redução das chances de gestação.
Para mulheres que estão tentando engravidar, a suspensão do álcool é a conduta mais prudente, especialmente porque a gestação pode ser descoberta somente algumas semanas após a concepção.
Já os dados sobre cafeína e fertilidade são menos consistentes. Durante a gestação, as recomendações geralmente consideram como limite até 200 mg de cafeína por dia. É importante lembrar que ela também está presente em chá preto, chá verde, refrigerantes à base de cola, chocolate e bebidas energéticas.
As bebidas açucaradas também merecem atenção, já que seu consumo elevado pode estar associado a uma menor fecundabilidade.
A alimentação pode ajudar pessoas com síndrome dos ovários policísticos ou resistência à insulina?
Sim. Esse é um exemplo de como metabolismo e reprodução estão diretamente relacionados.
Na síndrome dos ovários policísticos, a resistência à insulina pode contribuir para alterações hormonais e ovulatórias. Melhorar a sensibilidade à insulina pode ajudar a melhorar o ambiente metabólico e favorecer a função hormonal e reprodutiva.
Não existe, porém, uma dieta específica que seja obrigatoriamente superior às demais para pessoas com SOP. O mais importante é estabelecer um padrão alimentar sustentável, com boa oferta de fibras, proteína adequada, controle da carga glicêmica e, quando necessário, redução de gordura corporal.
A prática de atividade física também pode contribuir para melhorar a sensibilidade à insulina, independentemente da perda de peso.
Quanto tempo antes de tentar engravidar é importante começar a cuidar da alimentação?
O ideal é não esperar começar a tentativa de engravidar para cuidar da alimentação. Quanto antes, melhor.
Para os homens, pode ser especialmente interessante pensar em pelo menos três meses de preparação, já que a produção e a maturação dos espermatozoides ocorrem ao longo de várias semanas.
Para as mulheres, também é importante cuidar do ambiente metabólico e nutricional antes da gestação. O folículo que dará origem ao óvulo que será ovulado também passa por um processo de desenvolvimento que se estende por meses.
Quando há necessidade de corrigir peso ou deficiências nutricionais, esse planejamento pode precisar começar ainda mais cedo, já que mudanças sustentáveis não acontecem em poucas semanas. Além disso, o cuidado deve envolver o casal. A saúde reprodutiva não é uma responsabilidade exclusiva da mulher, já que fatores masculinos também estão envolvidos em uma parcela significativa dos casos de dificuldade para engravidar.
No fim, a alimentação saudável não garante uma gravidez, já que a fertilidade depende de inúmeros fatores. Porém, manter um padrão alimentar equilibrado, corrigir possíveis deficiências, cuidar da composição corporal e reduzir hábitos prejudiciais pode ajudar homens e mulheres a estarem em melhores condições fisiológicas para a reprodução.
Texto por: Gabriel Simões

