Choro sem parar? A antiga “cólica” ganhou um novo nome. Saiba por quê
- Redação Saúde Minuto
- 18/07/2026
- Kids Saúde
Poucas situações deixam os pais tão angustiados quanto um bebê que chora por horas e parece não conseguir se acalmar. Durante muito tempo, esse comportamento foi chamado simplesmente de cólica. Mas a ciência descobriu que a história é bem mais complexa.
As novas diretrizes internacionais do Consenso de Roma V, publicadas em 2026, substituíram oficialmente o termo “cólica do lactente” por Síndrome do Desconforto do Lactente. A mudança parece pequena, mas representa uma forma totalmente diferente de entender o que acontece com o bebê.
Hoje, os especialistas sabem que, na maioria dos casos, o problema não está apenas no intestino.
Nos primeiros meses de vida, o bebê ainda está aprendendo a lidar com tudo o que existe fora da barriga da mãe. Luzes, sons, temperaturas diferentes, colo, mamadas, digestão… tudo é novidade. O cérebro e o intestino ainda estão amadurecendo e se comunicam o tempo todo. Quando esse sistema fica sobrecarregado, o bebê pode ficar irritado, agitado e chorar por longos períodos, mesmo estando saudável.
Isso não significa que ele esteja “fazendo manha” nem que exista alguma doença grave escondida.
Segundo as novas recomendações, quando o bebê está ganhando peso normalmente, mama bem, cresce como esperado e não apresenta sinais de alerta, esse desconforto costuma fazer parte do desenvolvimento e, na maioria dos casos, melhora naturalmente com o passar dos meses, conforme o bebê amadurece.
Outra mudança importante é que o diagnóstico não depende mais daquela antiga “regra das três horas de choro”. Hoje, o pediatra avalia o comportamento do bebê como um todo, seu desenvolvimento e a ausência de sinais que indiquem outras doenças.
Isso também mudou a forma de tratar o problema.
O uso de medicamentos, antigases, analgésicos ou dietas muito restritivas para a mãe deixou de ser recomendado de rotina. As evidências mostram que essas medidas raramente resolvem o problema quando o bebê é saudável.
O que realmente costuma ajudar é reduzir os estímulos, principalmente no fim da tarde e no começo da noite, período conhecido por muitos pais como a “hora da bruxa”, quando o bebê tende a ficar mais irritado e difícil de consolar. Um ambiente silencioso, luzes mais baixas, colo, contato pele a pele, embalo, mamadas em livre demanda e ruído branco podem ajudar o bebê a relaxar. Sons desse tipo podem ser encontrados em plataformas de áudio e aplicativos.
Outra estratégia bastante utilizada é envolver delicadamente o bebê em uma manta leve, formando o chamado “charutinho”. Quando feita corretamente e com orientação do pediatra, a técnica pode transmitir sensação de segurança e conforto. É importante manter o rosto e o pescoço livres, não apertar excessivamente o quadril e interromper o uso assim que o bebê começar a tentar rolar.
Mas existe um detalhe que merece tanta atenção quanto o próprio bebê: quem está cuidando dele.
As novas diretrizes destacam que o bem-estar dos pais faz parte do tratamento. Noites mal dormidas, cansaço extremo, ansiedade e até depressão pós-parto podem tornar esse período ainda mais difícil. E o bebê percebe quando quem está segurando seu colo também está estressado.
Por isso, pedir ajuda não é sinal de fraqueza. Dividir os cuidados, descansar quando possível e contar com uma rede de apoio faz diferença para toda a família.
Se em algum momento o choro se tornar insuportável e você sentir que está perdendo o controle, coloque o bebê em segurança, de barriga para cima no berço, afaste-se por alguns minutos, respire fundo e só volte quando estiver mais calma. Essa orientação, presente nas diretrizes internacionais, ajuda a prevenir acidentes graves, como a Síndrome do Bebê Sacudido.
É importante lembrar que nem todo choro é considerado normal. Febre, dificuldade para respirar, vômitos persistentes, sangue nas fezes, recusa para mamar, perda de peso ou qualquer alteração importante no comportamento do bebê exigem avaliação médica imediata.
A boa notícia é que, na grande maioria das vezes, a Síndrome do Desconforto do Lactente é uma fase passageira. Com acolhimento, informação correta e acompanhamento do pediatra, ela costuma desaparecer conforme o bebê amadurece.
Mais do que tratar uma suposta dor de barriga, o objetivo agora é cuidar do bebê e também de quem está vivendo, junto com ele, uma das fases mais intensas da maternidade.
Texto elaborado pelo Dr. Tadeu Fernando Fernandes, pediatra do Departamento de Pediatria Ambulatorial e Cuidados Primários da Sociedade de Pediatria de São Paulo (SPSP), com adaptação editorial para o público leigo.
Referências científicas: Consenso de Roma V para Distúrbios Gastrointestinais Funcionais em Lactentes e Crianças (2026), que atualizou a nomenclatura e as recomendações para o manejo da antiga cólica do lactente, atualmente denominada Síndrome do Desconforto do Lactente.