Sarampo volta a preocupar: declínio da cobertura vacinal é histórico e o Brasil está longe de atingir a meta de 95% de imunização do público-alvo
- Redação Saúde Minuto
- 04/08/2026
- Saúde
Maioria das infecções está ligada a viajantes não vacinados; pediatra Antonio Carlos Turner alerta para o risco de novos surtos e reforça a importância da imunização
O avanço de novos casos de sarampo em São Paulo reacende o alerta para a queda da cobertura vacinal no Brasil. Somente neste ano, o estado já confirmou quase 20 casos da doença, a maior parte relacionada a viajantes não vacinados. O cenário preocupa especialistas, já que o país continua distante da meta de 95% de cobertura vacinal recomendada pelo Ministério da Saúde para garantir a imunidade coletiva e impedir a reintrodução do vírus.
A meta do Ministério da Saúde é imunizar 95% da população-alvo com as vacinas Tríplice Viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, e Tetraviral, que também inclui proteção contra a varicela. Embora os índices de vacinação infantil tenham apresentado recuperação em 2024 e 2025, os dados ainda revelam importantes lacunas de imunização. Segundo relatórios da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2024, a cobertura da primeira dose da Tríplice Viral atingiu 82,1%, enquanto a segunda dose foi de apenas 46,4%.
O cenário representa um declínio histórico. Depois de manter índices iguais ou superiores a 95% entre 2003 e 2014, a cobertura da Tríplice Viral passou a cair de forma contínua a partir de 2015, deixando milhões de brasileiros suscetíveis ao retorno de doenças que já estavam sob controle.
“Como a cobertura vacinal está abaixo de 95%, existe um risco real e permanente de reintrodução do vírus por meio de casos importados de países onde a doença ainda circula. O sarampo voltou a registrar surtos no Brasil em 2019 justamente por esse motivo, e a rubéola está sujeita ao mesmo risco. Manter a vacinação em dia é fundamental para proteger toda a população, especialmente os grupos mais vulneráveis, como as gestantes, que podem sofrer complicações graves em decorrência da Síndrome da Rubéola Congênita”, alerta o médico pediatra Antonio Carlos Turner, coordenador técnico da rede de clínicas Total Kids.
O especialista chama atenção para outro aspecto pouco conhecido, mas extremamente preocupante, da doença: a chamada amnésia imunológica. Estudos publicados na revista científica Science demonstraram que o vírus do sarampo pode comprometer a memória imunológica do organismo, reduzindo a capacidade do sistema imunológico de reconhecer e combater infecções contra as quais a pessoa já havia desenvolvido proteção. Em alguns casos, essa perda pode chegar a 20% e até 50% da imunidade adquirida ao longo da vida.
“O sarampo é uma das doenças mais contagiosas que existem. Uma única pessoa infectada pode transmitir o vírus para cerca de 18 pessoas que não estejam vacinadas. Por isso, a prevenção por meio da vacinação é indispensável”, reforça Turner.
O pediatra destaca que a vacina Tríplice Viral é segura, eficaz e continua sendo a principal forma de prevenção contra sarampo, caxumba e rubéola. O esquema vacinal prevê duas doses na infância, aos 12 e aos 15 meses de idade. Jovens de até 29 anos devem comprovar duas doses registradas na caderneta de vacinação. Adultos entre 30 e 59 anos precisam ter, pelo menos, uma dose, enquanto profissionais de saúde devem receber duas doses, independentemente da idade.
Antonio Carlos Turner lembra que a vacina não é indicada para gestantes, pessoas com imunossupressão grave e bebês menores de seis meses, salvo situações específicas previstas pelas autoridades de saúde. O médico também reforça que não existe qualquer comprovação científica de associação entre a vacina Tríplice Viral e o autismo.
“Vacinar é um ato de proteção individual e coletiva. Quem mantém a caderneta em dia protege a si mesmo e também aqueles que, por motivos médicos, não podem receber a vacina. Vale a pena conferir a caderneta de vacinação hoje mesmo e, se necessário, procurar uma unidade de saúde para atualizar as doses”, conclui.
Texto por: Dr. Antonio Carlos Turner