CagriSema alcança perda de peso de 21% e revela a força bilionária da Novo Nordisk em pesquisa
- Redação Saúde Minuto
- 23/09/2026
- Mercado Saúde
Nova aposta da farmacêutica combina semaglutida e cagrilintida e avança na corrida pelos tratamentos contra a obesidade. Por trás dos resultados, estão DKK 52 bilhões anuais em P&D e uma estratégia para colocar novas gerações de medicamentos no mercado
A corrida global pelos medicamentos contra a obesidade acaba de ganhar um novo capítulo. A Novo Nordisk apresentou resultados de dois estudos de fase 3 com o CagriSema, sua nova combinação de semaglutida e cagrilintida, administrada uma vez por semana. Em um deles, o tratamento experimental proporcionou perda média estimada de 21% do peso corporal. Em outro, superou a tirzepatida de 5 mg na redução de peso em pessoas com diabetes tipo 2.
Os números chamam a atenção por si só. Mas também ajudam a revelar algo maior: a dimensão da estrutura de pesquisa e desenvolvimento que a Novo Nordisk vem mobilizando para continuar relevante em um mercado que ela própria ajudou a transformar com medicamentos como Ozempic e Wegovy.
Somente em 2025, a companhia contabilizou DKK 52 bilhões em despesas de pesquisa e desenvolvimento, cerca de R$ 42 bilhões pela conversão cambial aproximada atual. O montante representou 16,8% das vendas da farmacêutica e cresceu 8% em relação ao ano anterior. Em 2023, eram DKK 32,4 bilhões. Em apenas dois anos, portanto, os gastos anuais com P&D cresceram cerca de 60%.
Parte importante dessa conta está justamente nos estudos que antecedem a chegada de novos medicamentos ao mercado. Os custos com ensaios clínicos chegaram a DKK 16,2 bilhões em 2025, contra DKK 9,5 bilhões dois anos antes.
Uma nova aposta para a obesidade
O CagriSema reúne duas moléculas com mecanismos diferentes. A semaglutida, já conhecida pelo uso em medicamentos da companhia, é agonista do receptor de GLP-1. A cagrilintida é um agonista de ação prolongada do receptor de amilina. A estratégia é combinar os dois mecanismos em uma única aplicação semanal.
No estudo REDEFINE 9, realizado com adultos com sobrepeso ou obesidade, CagriSema 1,0 mg/1,0 mg proporcionou perda média estimada de 21% do peso corporal na semana 68, ante 2% no grupo placebo. O tratamento também apresentou resultados superiores ao placebo em indicadores como pressão arterial sistólica, relação cintura-altura e perfil lipídico em jejum.
Já o REIMAGINE 5 colocou a combinação frente a frente com a tirzepatida em adultos com diabetes tipo 2. Na semana 60, CagriSema 1,0 mg/1,0 mg alcançou redução média estimada de peso de 12,4%, contra 9,1% com tirzepatida 5 mg. Na HbA1c, indicador utilizado para acompanhar o controle da glicemia, a redução foi de 1,71% com CagriSema e de 1,67% com tirzepatida, atendendo ao critério de não inferioridade.
A comparação exige uma ressalva importante: o resultado se refere especificamente às doses avaliadas no estudo e não significa que CagriSema tenha demonstrado superioridade sobre todas as doses disponíveis de tirzepatida.
O produto ainda é investigacional. A Novo submeteu em dezembro de 2025 um pedido de registro do CagriSema para controle de peso à FDA, agência reguladora dos Estados Unidos, e espera uma decisão no quarto trimestre deste ano.
“Embora CagriSema ainda seja um produto investigacional, esses achados reforçam nossa confiança em seu potencial, ampliam as evidências crescentes sobre a biologia da amilina e fortalecem nossa ambição de desenvolver a próxima geração de tratamentos para obesidade e diabetes tipo 2”, afirmou Martin Holst Lange, vice-presidente executivo de Pesquisa & Desenvolvimento e diretor científico da Novo Nordisk, ao divulgar os resultados.
Uma máquina de inovação
O CagriSema, no entanto, é apenas uma das peças de um pipeline que ajuda a dimensionar a estratégia da companhia.
A Novo vem expandindo a pesquisa para além das formulações que a transformaram em uma das protagonistas do mercado de obesidade. Entre os projetos estão novas doses e apresentações da semaglutida, cagrilintida isolada e zenagamtide, anteriormente conhecida como amycretin, molécula que atua nos receptores de GLP-1 e amilina e avançou para desenvolvimento de fase 3. A empresa também firmou acordos para incorporar outros candidatos voltados a obesidade e diabetes.
A lógica é clara: em uma área que muda rapidamente, depender de uma única molécula, uma única caneta ou mesmo de uma única forma de administração pode não ser suficiente para sustentar a liderança tecnológica.
A dimensão financeira permite manter diferentes apostas simultaneamente. Considerando uma medida mais ampla divulgada pela própria companhia, que inclui investimentos, parcerias e licenças de pesquisa e desenvolvimento, a Novo afirma ter destinado mais de DKK 82 bilhões a P&D em 2025. No mesmo período, investiu mais de DKK 60 bilhões principalmente na ampliação da capacidade produtiva.
Essa escala se traduz também no tamanho da operação. A companhia encerrou 2025 com vendas de DKK 309 bilhões e aproximadamente 69,5 mil funcionários. Apenas a divisão de cuidados com obesidade movimentou DKK 82,3 bilhões no ano, depois de registrar cerca de DKK 6 bilhões em 2019.
A corrida está longe de terminar
Os números apresentados no Capital Markets Day, realizado em Londres, mostram que a Novo não pretende desacelerar. Para 2030, a farmacêutica estabeleceu como ambição ter pelo menos cinco programas de fase 3 em obesidade e diabetes e outros cinco em diferentes áreas terapêuticas. Também pretende lançar mais de cinco produtos com potencial de vendas multibilionárias e alcançar mais de 60 milhões de pacientes globalmente.
Há ainda uma mudança importante na forma como esse mercado pode se desenvolver. A Novo pretende criar capacidade para atender dez vezes mais pessoas com tratamentos orais de GLP-1 para obesidade. Ou seja, a próxima disputa pode extrapolar as populares “canetas emagrecedoras” e avançar também para comprimidos e novas combinações farmacológicas.
É nesse ambiente que o CagriSema ganha relevância estratégica. O medicamento pode se tornar mais uma opção comercial importante para a Novo, mas, antes disso, funciona como demonstração da capacidade da companhia de colocar sucessivas gerações de moléculas em estudos clínicos de grande porte.
A disputa pela obesidade tornou-se uma das mais competitivas da indústria farmacêutica mundial, e a própria Novo enfrenta concorrência relevante, especialmente da Eli Lilly. A vantagem, nesse mercado, tende a depender cada vez menos do sucesso isolado de um medicamento e mais da capacidade de financiar ciência, testar diferentes mecanismos, construir capacidade industrial e manter um pipeline preparado para substituir a geração atual.
Para a Novo Nordisk, a aposta é bilionária: transformar o sucesso da primeira geração de GLP-1 em combustível para desenvolver a próxima.

