Vacina antitabagismo: imunizante brasileiro busca mudar o tratamento da dependência
- Redação Saúde Minuto
- 31/08/2026
- Saúde Tabagismo Vacina
Vacina nacional prevê testes em humanos em até dois anos; entenda como funciona
A nova etapa do tratamento contra o tabagismo e da prevenção de recaídas pode vir de uma vacina 100% brasileira que “sequestra” a nicotina e impede que ela chegue ao cérebro.
O tabagismo é um dos maiores problemas de saúde pública do mundo, causando cerca de 8 milhões de mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Desse total, aproximadamente 7 milhões ocorrem por consumo direto e 1,3 milhão por exposição passiva ao fumo.
Para combater essa epidemia, o Centro de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação do Laboratório Cristália apresentou os resultados iniciais de uma pesquisa inédita no país. Normalmente, as moléculas de drogas de abuso passam despercebidas pelo sistema imunológico por conta de seu tamanho reduzido. No novo método, a molécula da nicotina é acoplada a uma estrutura sintética reconhecida pelo organismo, estimulando a produção de anticorpos neutralizantes específicos na corrente sanguínea.
Na prática, quando o paciente vacinado entra em contato com o tabaco, os anticorpos capturam a nicotina ainda no sangue. Incapaz de chegar ao cérebro, a substância não ativa os receptores de acetilcolina nem estimula a liberação de dopamina, anulando a sensação de prazer que alimenta o vício.
Segundo o médico Ogari Pacheco, fundador e presidente do Conselho Diretivo do Cristália, a tecnologia não substitui o tratamento tradicional, mas protege a sua continuidade. O foco central é conter as recaídas, que atingem cerca de 85% dos pacientes no primeiro ano de tentativa e dois terços nas primeiras duas semanas, segundo o National Institute on Drug Abuse.
De acordo com Rogério Almeida, Vice-Presidente de Pesquisa, Desenvolvimento & Inovação do laboratório, o tratamento é multidisciplinar e uma ferramenta a mais nessa abordagem.
“O modelo indica com alguma assertividade que a durabilidade deve ser suficiente para superar a fase crítica de recaídas”, afirma Almeida.
Para a Dra. Maria Enedina Scuarcialupi, coordenadora da Comissão Científica de Tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, a abordagem dos resultados iniciais dos estudos é recebida com otimismo: “Se demonstrar eficácia e segurança será uma grande arma para cessação do tabagismo e controle da abstinência e prevenir as recaídas”, afirma a médica.
O projeto encontra-se em seus estágios iniciais e foi testado exclusivamente em animais até o momento. O Cristália estima um prazo de 18 a 24 meses para concluir os estudos pré-clínicos e submeter o pedido de autorização à Anvisa para dar início aos ensaios em humanos.
“Resta saber se vai gerar anticorpos na maioria dos pacientes, em níveis suficientemente altos e duradouros para manter abstinência permanente”, diz Scuarcialupi.
E Almeida afirma que, na Fase 1 dos estudos em humanos, será possível determinar a duração exata da proteção e a necessidade de doses de reforço.
Segundo Almeida, ainda, o mecanismo de acoplamento molecular poderá ser adaptado futuramente contra a dependência de outras substâncias psicoativas, exceto o alcoolismo, que exige abordagens baseadas em terapia gênica.
Texto por: Fabricio Colli

