Usa canetinha? Veja o que o formato das fezes revela
- Redação Saúde Minuto
- 11/09/2026
- Saúde
Prisão de ventre, diarreia e mudanças no formato e na consistência das fezes podem aparecer durante o uso de medicamentos como semaglutida e tirzepatida. Mas como saber o que é uma alteração esperada e quando o intestino está dando um sinal de alerta? O cirurgião do aparelho digestivo Dr. Rodrigo Barbosa explica o que vale observar no vaso sanitário e quais mudanças merecem atenção.
Pode não ser o hábito mais agradável, mas vale a pena olhar para as fezes antes de dar descarga. A aparência delas pode dar pistas importantes sobre o funcionamento do intestino e ajudar a identificar mudanças que merecem ser investigadas.
Para quem usa as chamadas “canetinhas” para obesidade e diabetes, essa observação pode ser ainda mais útil. Medicamentos como semaglutida e tirzepatida atuam em mecanismos relacionados à fome e à saciedade, mas seus efeitos também chegam ao aparelho digestivo. Náusea, vômitos, prisão de ventre, diarreia, desconforto abdominal e aquela sensação de que a comida ficou no estômago por muito tempo estão entre os sintomas que podem aparecer durante o tratamento.
Segundo o cirurgião do aparelho digestivo Dr. Rodrigo Barbosa, mudanças no funcionamento intestinal não são necessariamente motivo para alarme, mas também não devem ser ignoradas quando persistem.
“Quando iniciamos um medicamento que interfere no trato gastrointestinal, é possível perceber mudanças que antes não faziam parte da rotina. O mais importante é observar a intensidade, a duração e a evolução dos sintomas. Uma alteração ocasional é diferente de uma mudança persistente do hábito intestinal”, explica.
Afinal, como estão as suas fezes?
Existe até uma escala usada na medicina para ajudar a responder a essa pergunta.
A Escala de Bristol classifica as fezes de acordo com seu formato e consistência, indo das mais duras e ressecadas às completamente líquidas.
De maneira simplificada, funciona assim:
Fezes duras, ressecadas ou em pequenas bolinhas: podem estar associadas à prisão de ventre.
Fezes formadas e macias: geralmente estão mais próximas do padrão considerado adequado.
Fezes muito moles ou líquidas: podem estar relacionadas ao trânsito intestinal mais acelerado e à diarreia.
“A Escala de Bristol é interessante porque transforma algo bastante subjetivo em uma informação que o próprio paciente consegue observar e relatar. Em vez de dizer apenas que o intestino ‘mudou’, ele consegue explicar melhor o que está acontecendo”, afirma Barbosa.
Por que as canetinhas mexem com o intestino?
O efeito desses medicamentos não acontece apenas na balança.
Eles também interferem no funcionamento do aparelho digestivo. Entre seus efeitos está a desaceleração do esvaziamento do estômago, especialmente relacionada à ação do GLP-1. Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas passam a se sentir satisfeitas com uma quantidade menor de comida ou permanecem saciadas por mais tempo.
Só que o aparelho digestivo também pode sentir essa mudança.
Algumas pessoas passam a evacuar menos e apresentam fezes mais duras. Outras enfrentam episódios de diarreia. Também podem surgir náusea, sensação de estômago cheio, desconforto abdominal e vômitos.
E contar apenas quantas vezes você vai ao banheiro não é suficiente para saber se está tudo bem.
“Uma pessoa pode evacuar regularmente, mas fazer muito esforço e eliminar fezes extremamente endurecidas. Outra pode perceber uma mudança importante na consistência mesmo sem grande alteração na frequência. Por isso, precisamos avaliar o conjunto”, explica o cirurgião.
O intestino mudou? A culpa pode não ser só da canetinha
Quem começa um tratamento para emagrecer costuma mudar também a maneira de comer.
As porções podem diminuir, alguns alimentos saem do cardápio, outros entram e o consumo de fibras, proteínas e líquidos pode mudar bastante.
E tudo isso influencia o intestino.
Beber pouca água, por exemplo, pode contribuir para deixar as fezes mais ressecadas. Uma redução importante no consumo de fibras também pode alterar o funcionamento intestinal.
Por isso, nem toda mudança deve ser automaticamente atribuída ao medicamento.
“Se o hábito intestinal mudou, precisamos olhar o contexto. Houve mudança na alimentação? A ingestão de água diminuiu? O paciente está comendo menos fibras? Começou outro medicamento? Existem sintomas associados? A avaliação não pode se limitar à caneta”, ressalta Barbosa.
Quando é hora de procurar um médico?
Um episódio isolado de prisão de ventre ou diarreia é diferente de uma alteração que persiste ou vem acompanhada de outros sintomas.
Dor abdominal forte ou que piora, vômitos persistentes, dificuldade para manter a hidratação, barriga muito distendida, sangue nas fezes, fezes muito escuras ou uma mudança persistente e sem explicação no hábito intestinal merecem avaliação médica.
Também não é recomendável interromper o tratamento ou modificar a dose do medicamento por conta própria diante de um efeito gastrointestinal. A decisão deve ser discutida com o profissional responsável pelo acompanhamento.
E fica uma recomendação simples: conheça o que é normal para o seu intestino.
“Olhar para o vaso sanitário é essencial para conhecer o próprio padrão intestinal e ajuda a perceber quando existe uma mudança relevante, além de fornecer informações melhores para a consulta. Se o intestino mudou e não voltou ao seu padrão habitual, vale entender o motivo”, conclui Dr. Rodrigo Barbosa.
Texto por: Cirurgião do aparelho digestivo Dr. Rodrigo Barbosa

