Zolpidem: apagões, dependência e alucinações
- Redação Saúde Minuto
- 11/09/2026
- Saúde
Medicamento age diretamente no cérebro e, quando usado sem acompanhamento, pode levar ao aumento progressivo das doses, dependência, perda de memória e alterações importantes de comportamento
A história pode começar de maneira aparentemente inofensiva. Uma noite sem dormir, um comprimido de zolpidem e, pouco tempo depois, o sono chega. O problema é quando o medicamento deixa de ser uma solução pontual, passa a fazer parte de todas as noites e a pessoa percebe que já não consegue dormir sem ele.
Usado no tratamento da insônia, o zolpidem é um hipnótico que atua no sistema nervoso central. Embora tenha indicação médica, o uso inadequado está longe de ser inofensivo. Tolerância, dependência, amnésia, confusão, alucinações e comportamentos incomuns estão entre os problemas associados ao medicamento. O Portal Drauzio Varella e especialistas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) vêm chamando atenção para os riscos do uso abusivo.
Quando um comprimido já não faz o mesmo efeito
Um dos sinais de alerta é a tolerância. Com o uso inadequado e continuado, o efeito percebido pode diminuir e algumas pessoas começam a aumentar a dose por conta própria.
É aí que se estabelece um ciclo perigoso: a pessoa toma para dormir, sente que precisa cada vez mais do medicamento e passa a acreditar que não conseguirá dormir sem ele.
O problema não é apenas psicológico. O zolpidem apresenta potencial de dependência, especialmente quando usado fora das recomendações médicas, em doses elevadas ou por períodos prolongados.
Tomou zolpidem e não lembra do que fez?
Esse é um dos efeitos que mais assustam.
O medicamento pode provocar amnésia anterógrada, uma dificuldade de registrar novas memórias depois de tomá-lo. Na prática, a pessoa pode realizar determinadas atividades e, na manhã seguinte, simplesmente não se lembrar delas.
Conversar, mandar mensagens, comer ou fazer compras são exemplos de comportamentos relatados. Também podem ocorrer atividades complexas durante o sono.
Por isso, o famoso relato de alguém dizer “eu fiz isso e não lembro” depois de tomar zolpidem não deve ser tratado como brincadeira.
Pode causar alucinação?
Pode.
Alucinações, confusão, desinibição, alterações de percepção e comportamentos anormais estão entre os eventos neuropsiquiátricos descritos em associação ao zolpidem.
Mas é preciso cuidado com a expressão “surto psicótico”.
Uma pessoa pode apresentar alucinações, delírios ou comportamento desorganizado relacionados ao efeito de uma substância sem que isso signifique que desenvolveu esquizofrenia ou outro transtorno psicótico primário.
Ainda assim, ver ou ouvir coisas que não existem, apresentar comportamento muito diferente do habitual, agitação intensa ou perder o contato com a realidade após tomar zolpidem exige avaliação médica.
O que o zolpidem faz no cérebro?
O medicamento potencializa a ação do GABA, um importante neurotransmissor inibitório do cérebro. Em termos simples, ele reduz a atividade do sistema nervoso central e facilita o início do sono.
É justamente essa atuação cerebral que explica tanto o efeito desejado quanto parte dos problemas que podem aparecer: sonolência, prejuízo da atenção e coordenação, alterações de memória, confusão e mudanças de comportamento.
Zolpidem com álcool: combinação perigosa
Outro alerta importante é a associação com bebida alcoólica.
Álcool e zolpidem exercem efeitos depressores sobre o sistema nervoso central. A combinação pode potencializar sonolência, comprometimento da consciência, prejuízo da coordenação, memória e julgamento, aumentando o risco de acidentes e outros eventos graves.
O mesmo cuidado vale para outros medicamentos capazes de deprimir o sistema nervoso central.
Parar de uma vez também pode dar problema
Existe ainda uma armadilha: perceber que está dependente e decidir interromper o zolpidem abruptamente.
Quando há dependência, a retirada pode provocar insônia rebote, ansiedade, irritabilidade, tremores, sudorese e outros sintomas de abstinência. Em situações mais graves, especialmente envolvendo doses elevadas, podem ocorrer convulsões.
Por isso, quem já utiliza zolpidem regularmente não deve aumentar, reduzir ou suspender a dose por conta própria.
Quando acender o sinal de alerta
Há alguns comportamentos que merecem atenção: precisar do zolpidem todas as noites, aumentar a dose sem orientação, ficar angustiado quando o medicamento está acabando, tomar doses maiores do que as prescritas, misturar com álcool, ter apagões ou fazer coisas das quais não se lembra.
Também merece investigação a sensação de que “sem o comprimido eu não durmo de jeito nenhum”.
O zolpidem não precisa ser tratado como vilão. É um medicamento com indicações médicas específicas. O perigo aparece quando aquilo que deveria ser um tratamento controlado se transforma em automedicação e uso abusivo.
E existe uma questão ainda mais importante: se alguém precisa constantemente de um medicamento para conseguir dormir, é preciso descobrir por que essa pessoa não está dormindo.
Texto por: Portal Drauzio Varella e especialistas da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

