Passou dos 20. Ainda vale tomar a vacina contra o HPV?
- Redação Saúde Minuto
- 03/11/2026
- Saúde
Mesmo depois do início da vida sexual, a vacinação pode oferecer proteção contra o vírus associado a diferentes tipos de câncer. Especialistas explicam quem pode se beneficiar.
Você passou dos 20, dos 30 ou até dos 40 anos e nunca tomou a vacina contra o HPV? Talvez ainda valha a pena pensar no assunto. Embora a imunização seja mais eficaz antes do início da vida sexual, isso não significa que quem deixou passar essa fase perdeu a oportunidade de se proteger.
Um estudo publicado na revista científica JAMA Oncology, que acompanhou mais de 750 mil mulheres na Suécia, mostrou que aquelas vacinadas entre os 10 e 16 anos tiveram um risco 55% menor de desenvolver lesões de alto grau, em comparação com as que receberam a vacina a partir dos 17 anos.
Mas e quem já teve relações sexuais ou até entrou em contato com o HPV? A vacina ainda funciona?
Segundo a infectologista Luisa Chebabo, dos laboratórios Sérgio Franco e Bronstein, da Dasa, no Rio de Janeiro, a resposta é sim, embora os benefícios variem de pessoa para pessoa.
“Os programas de vacinação em adolescentes visam à proteção individual contra o vírus, além de oferecer uma grande proteção indireta para toda a sociedade. Apesar de alguns adultos já terem tido contato prévio com algumas cepas do HPV, a vacina previne novas infecções, principalmente se for aplicada a nonavalente, que confere proteção contra nove tipos do vírus. Dessa forma, o paciente pode estar seguro contra tipos com os quais ele ainda não teve contato.”
HPV não é assunto só de adolescente
O HPV é uma infecção sexualmente transmissível muito comum. Alguns tipos do vírus podem provocar verrugas genitais, enquanto outros estão associados a cânceres, principalmente do colo do útero, mas também de ânus, pênis, vulva, vagina e orofaringe.
A vacina é uma das principais formas de prevenção. E mesmo quem já teve contato com determinado tipo do vírus pode continuar vulnerável a outros.
Maria Isabel de Moraes-Pinto, infectologista e consultora em vacinas do Alta Diagnósticos, explica que o Brasil prioriza a imunização de crianças e adolescentes pelo SUS, justamente porque a proteção é maior antes da exposição ao HPV.
Na rede pública, a vacinação de rotina contempla meninas e meninos de 9 a 14 anos, com dose única da vacina quadrivalente, que protege contra quatro tipos do vírus. Em 2026, a estratégia de resgate também contempla jovens de 15 a 19 anos que ainda não foram vacinados.
Pessoas que vivem com HIV, transplantados, pacientes oncológicos e outros grupos específicos podem receber a vacina gratuitamente em faixas etárias ampliadas, conforme os critérios do Ministério da Saúde.
Já na rede privada está disponível a vacina nonavalente, que protege contra nove tipos de HPV. A Sociedade Brasileira de Imunizações recomenda duas doses até os 19 anos e três doses a partir dos 20 anos, para pessoas sem condições especiais de imunossupressão.
Já teve HPV? A vacina ainda pode ajudar
Ter tido HPV não significa que a vacinação perdeu sua utilidade. Isso porque existem diferentes tipos do vírus, e uma infecção anterior não garante proteção contra os demais.
A vacina, porém, não elimina uma infecção já existente nem trata lesões provocadas pelo HPV. Seu papel é prevenir novas infecções pelos tipos contemplados no imunizante.
Uma revisão sistemática e metanálise divulgada em agosto de 2026, com participação de pesquisadores ligados à Organização Mundial da Saúde e à Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, analisou a eficácia da vacinação em mulheres com 25 anos ou mais.
Entre aquelas sem evidência de infecção pelos tipos avaliados antes da vacinação, a eficácia chegou a 90% na prevenção de infecções persistentes e lesões iniciais. Já entre as participantes cujo histórico de exposição não havia sido previamente estabelecido, o índice foi de 64%.
Os resultados mostram que a vacinação pode oferecer benefícios mesmo na vida adulta, mas a proteção depende do histórico de exposição ao vírus e das características de cada pessoa.
Afinal, vale tomar a vacina depois dos 30 ou 40?
Depende. Para quem nunca foi vacinado, especialmente quem pode ter novos parceiros sexuais, a imunização pode representar uma proteção adicional.
Uma revisão científica publicada em maio de 2026 no Journal of Primary Care & Community Health apontou que a vacina continua sendo segura e capaz de estimular a produção de anticorpos em adultos com mais de 26 anos. Entretanto, a vacinação universal dessa faixa etária apresenta menor benefício coletivo e menor custo-efetividade do que a imunização de adolescentes.
Isso ajuda a explicar por que a vacinação pública prioriza os mais jovens, enquanto adultos podem avaliar individualmente os benefícios com seu médico.
“O Brasil tem uma das melhores estratégias de imunização pública do mundo e contra o HPV não é diferente. A vacina para os mais jovens é excelente, mas ainda pode trazer benefícios para adultos, principalmente para aqueles que apresentam um exame negativo para o vírus ou para os que correm o risco de se expor a novos tipos, por exemplo, pessoas que mudaram de parceiro sexual ou têm risco contínuo”, comenta Maria Isabel.
A vacina não substitui o ginecologista
Mesmo depois de vacinada, a mulher precisa continuar com os exames preventivos do câncer do colo do útero, conforme a orientação médica. Isso porque a vacina não protege contra todos os tipos de HPV capazes de causar câncer e não trata infecções anteriores.
O preservativo também continua importante, pois reduz o risco de transmissão do HPV e de outras infecções sexualmente transmissíveis, embora não elimine completamente a possibilidade de contágio.
Para quem deixou a vacinação para depois, a mensagem é simples: não existe uma resposta igual para todo mundo. Mas também não é preciso descartar a possibilidade de se proteger só porque a adolescência ficou para trás.
A melhor decisão começa com uma conversa com o médico, considerando idade, histórico de vacinação e possibilidade de novas exposições ao vírus.

