Seu intestino “parou de funcionar” nas férias?
- Redação Saúde Minuto
- 11/01/2025
- Saúde
Sociedade Brasileira de Coloproctologia alerta que prisão de ventre é mais comum entre mulheres e idosos; cerca de 30% dos brasileiros possuem dificuldade para evacuar
Para muitas pessoas, férias são sinônimo de constipação. Essa mudança no funcionamento do intestino pode ter diferentes razões, como a alteração na rotina alimentar, a ingestão de menos água e fibras, a dificuldade de ir ao banheiro fora de casa e a não realização de exercícios físicos. Estima-se que entre 20 e 30% dos brasileiros sofram com constipação, sendo a maioria de mulheres e idosos.
Presidente da Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP), Dr. Sergio Alonso Araújo alerta que a prisão de ventre não significa apenas ficar alguns dias sem evacuar, mas é um conjunto de sintomas. “Segundo os critérios de Roma III, a constipação pode ser diagnosticada quando há presença de dois ou mais dos seguintes fatores: menos de três evacuações por semana; esforço para evacuar; fezes endurecidas ou fragmentadas; sensação de evacuação incompleta; sensação de obstrução ou interrupção da evacuação; necessidade de manobras digitais para facilitar a evacuação”, enumera. Podem ser observados ainda sintomas como distensão abdominal, cólica e excesso de gases.
E quando o trajeto até o destino das férias consiste em muitas horas de viagem, é provável que isso também impacte no funcionamento do intestino. Em viagens de avião, por exemplo, é comum as pessoas evitarem consumir muito líquido para não precisar ir ao banheiro. Some-se a isso as horas sentadas. Resultado provável: fezes endurecidas e trânsito intestinal mais lento.
Segunda a Dr.ᵃ Bruna Dell’Acqua, membro titular da SBCP, a mudança do fuso horário e do ciclo sono-vigília pode afetar diretamente a saúde digestiva do viajante. “O ciclo circadiano é responsável por regular diversas funções do organismo e, entre elas, o hábito intestinal. O cérebro e o intestino estão intimamente conectados e quando ocorre uma alteração do nosso relógio biológico como acontece em viagens internacionais ou quando trocamos o dia pela noite, desregulamos a nossa motilidade intestinal, a secreção de enzimas digestivas e a microbiota intestinal. Além disso, esse desajuste pode levar a alterações como diarreia, inchaço, flatulência excessiva e principalmente a constipação”, alerta.
Mulheres e idosos são os mais afetados
A constipação é uma queixa comum entre as mulheres e afeta negativamente a qualidade de vida delas. Entre as principais causas estão a influência dos hormônios e o hábito de não obedecer ao desejo de evacuar fora de casa. A menstruação, a gravidez e a menopausa, por exemplo, costumam impactar no funcionamento do intestino em razão das oscilações hormonais. Além disso, adiar a evacuação quando se está fora de casa pode causar ressecamento das fezes, dificuldade de eliminá-las e ferimento no ânus (fissura anal) e/ou hemorroidas.
Nos idosos, a constipação pode estar relacionada a fatores como sedentarismo, pouca ingestão de água, uso de certos medicamentos e fraqueza da musculatura da parede intestinal.
Outras condições específicas também podem afetar a função intestinal, como diabete, hipotireoidismo e depressão.
Dicas para manter o intestino em dia
Na maioria das vezes, a constipação é causada por baixa ingestão de fibras e líquidos e falta de atividade física, e nas férias esses hábitos são intensificados devido à mudança da rotina. Confira algumas dicas que podem ajudar:
Respeite a vontade de evacuar – quando sentir necessidade de ir ao banheiro, não deixe para depois, pois adiar essa vontade pode fazer com que ela demore para voltar e suas fezes fiquem ressecadas, dificultando a saída. Lembre-se: evacuar é um ato fisiológico, não tenha vergonha de ir ao banheiro fora de casa!
Fique atento à alimentação – procure manter uma alimentação equilibrada, coma frutas, verduras, legumes e grãos integrais, ricos em fibras, auxiliam na formação do bolo fecal e melhoram o trânsito intestinal. Iogurtes e café também são uma boa pedida quando o assunto é estimular o funcionamento do intestino. E evite alimentos gordurosos e frituras.
Hidrate-se – A água é ótima aliada contra a constipação. Com as fibras, elas formam uma espécie de gel que beneficia o funcionamento intestinal.
Não exagere nas bebidas alcoólicas – não ache que chope, cerveja e destilados ajudam na hidratação. Pelo contrário, essas bebidas podem provocar desidratação, enquanto retiram água das fezes, deixando-as endurecidas. Vai consumir álcool? Beba água também, antes, durante e depois.
Consuma alimentos laxativos – se você já costuma enfrentar alguma dificuldade para evacuar, no café da manhã capriche no consumo de frutas como mamão, laranja e ameixa. Elas contêm boa quantidade de fibras e auxiliam no funcionamento intestinal.
Movimente-se – mesmo que a preguiça se instale nas férias, procure se movimentar. Se não conseguir praticar uma atividade física, caminhe. A atividade física ajuda a estimular o funcionamento intestinal e os movimentos peristálticos.
Durma bem – o ideal é dormir cerca de 6 a 8 horas por dia. Procure respeitar essa rotina, pois a privação do sono também impacta no funcionamento do intestino.
Riscos de laxantes sem recomendação médica
Para combater a constipação, muitas pessoas recorrem aos laxantes por conta própria como solução imediata, mas seu uso recorrente pode acabar prejudicando o funcionamento do intestino.
“Ao contrário do que muita gente pensa, o consumo de laxantes sem orientação médica representa um grande risco à saúde por poder levar a sérios problemas intestinais e sistêmicos. A irritação do intestino e a dependência do medicamento são comuns, fazendo com que o intestino perca a capacidade de funcionar naturalmente, exigindo cada vez doses maiores para obter o mesmo efeito. O abuso de laxantes pode ainda resultar em desequilíbrios eletrolíticos, desidratação, cólicas intensas e até mesmo complicações cardíacas, pulmonares e renais. Sem esquecer que o uso indiscriminado ou inadequado de remédios pode mascarar outros problemas, como doenças inflamatórias intestinais, distúrbios hormonais e doenças mais sérias como o câncer, dificultando o diagnóstico correto e o tratamento adequado. Por isso, é fundamental buscar orientação médica antes de recorrer a qualquer tipo de laxante, mesmo aqueles recomendados por conhecidos ou tidos como ‘naturais'”, acrescenta a Dr.ᵃ Ana Sarah Portilho, diretora de comunicação da SBCP.
Quando procurar o médico
Se você evacua menos de três vezes por semana e precisa fazer esforço excessivo para eliminar as fezes, ligue o sinal de alerta. Na maioria das vezes, essas mudanças de hábitos de vida podem auxiliar o intestino a voltar a funcionar normalmente. Mas se você voltar das férias e isso não funcionar, é aconselhável procurar ajuda de um especialista.
“Quando todas essas mudanças de hábitos nutricionais, comportamentais e farmacológicas não são suficientes para resolver a constipação, o médico deve ser consultado. Em casos mais complexos, está indicada uma investigação detalhada, com exames específicos para identificar causas subjacentes e encaminhar o paciente para um acompanhamento mais especializado”, complementa a Dr.ᵃ Bruna Dell’Acqua.
Profissionais consultados: Dr. Sergio Alonso Araújo, Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP); Dr.ᵃ Bruna Dell’Acqua, membro titular da SBCP; Dr.ᵃ Ana Sarah Portilho, diretora de comunicação da SBCP
Texto por: Sociedade Brasileira de Coloproctologia