Agosto Lilás: o que é um relacionamento abusivo?
- Redação Saúde Minuto
- 15/08/2022
- Marilene Kehdi Psicologia
O movimento Agosto Lilás é uma campanha de conscientização pelo fim da violência contra a mulher.
As mulheres são as maiores vítimas de relacionamentos abusivos, e é muito difícil que elas percebam que estão entrando numa relação deste tipo, pois no início, o abusador seduz, elogia, conquista, e somente ao longo do tempo vai revelando sua verdadeira personalidade.
Ele pauta seu comportamento de forma que a vítima tenha uma percepção distorcida da realidade em que está imersa, e as atitudes opressoras acabam sendo confundidas com amor, carinho e preocupação. Por isso, muitas mulheres demoram a reconhecer e aceitar a situação que estão vivendo.
O abusador usa todo seu poder, controle e domínio e o processo de violência sempre se inicia de forma verbal e psicológica.
A pressão psicológica é intensa e sufocante, com o uso de palavras de depreciação, críticas e humilhações, que podem ser ditas de forma explícita ou velada, carinhosa, induzindo a vítima a acreditar que se trata de um “cuidado”, que visa o bem dela.
Também há muito gaslighting, processo em que as informações são manipuladas até que a vítima duvide de sua própria percepção da realidade. Existe um grau de perversidade, que pode evoluir da violência física até o feminicídio.
O relacionamento abusivo é marcado pelo ciúme excessivo, controle, dependência, chantagem emocional, sentimento de posse, humilhação, manipulação e outros tipos de agressão que, gradativamente, desencadeiam vários transtornos mentais na mulher, entre eles, ansiedade, crises de pânico e depressão.
Características de um relacionamento abusivo:
. Violência verbal e psicológica: palavras e condutas que causam danos psicológicos e emocionais. Abalam demais a autoestima e a autoconfiança da vítima.
. Violência moral: condutas que ofendem a dignidade, difamação, injúria e calúnia, entre outros.
. Violência patrimonial: condutas que configuram retenção, controle sobre documentos, bens e dinheiro, entre outros.
. Violência física: atos violentos e agressões físicas que podem chegar ao feminicídio.
. Violência sexual: quando a mulher é impedida de usar métodos contraceptivos ou é obrigada a manter relações sexuais.
Existem no relacionamento abusivo alguns ciclos distintos.
Em um destes ciclos, evidenciam-se os momentos de carinho, atenção e gentilezas, que atuam para tranquilizar a vítima e dissipar a impressão negativa causada pelo agressor nos momentos de violência, de explosão. A intenção é levá-la a crer que ele só deseja o bem dela, e que os desatinos dele são provocados pelas atitudes dela. São formas de manipular, subjugar e enredar a vítima numa teia de culpa, submissão e inércia.
Em outras situações, o abusador nega categoricamente um fato incontestável, afirmando que a vítima interpretou tudo errado ou que está louca, desequilibrada ou mentindo.
Abusadores compelem as vítimas a duvidar da memória, percepção e até mesmo da própria sanidade mental.
Ninguém escolhe entrar em um relacionamento abusivo, porém, quanto mais duradoura a relação, mais difícil da mulher se libertar. Cada caso é um caso e vários motivos podem atuar como complicadores do rompimento:
. A vítima se responsabiliza pelo comportamento do abusador. O opressor age de forma a induzir a mulher a assumir a responsabilidade e a culpa pelo comportamento dele.
. Dependência emocional;
. Submissão;
. Dependência financeira;
. Idealização, excesso de expectativas, entre elas que o abusador vai reformular o próprio comportamento;
. Ausência de uma rede protetiva de apoio;
. Medo.
Quanto mais o tempo passa, mais fragilizada e vulnerável a vítima se torna, o que dificulta ainda mais a ruptura da relação.
Neste contexto, é fundamental buscar acolhimento e suporte com alguém de confiança ou com grupos de apoio terapêutico destinados a mulheres vítimas de violência e relacionamentos abusivos.
Se for possível, buscar ajuda especializada com psicólogo, pois se faz necessário aprofundar o autoconhecimento, redirecionar e modificar as crenças introjetadas, o padrão de comportamento, a forma de se relacionar e aprimorar a autopercepção.
Para denunciar qualquer ato de violência contra a mulher, ligue 180.
Esse número é gratuito, confidencial (anônimo) e funciona 24 horas, todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados, e pode ser acionado de qualquer lugar do Brasil.
Texto por Marilene Kehdi | Psicóloga, especialista em atendimento clínico.