Cortar as pontas duplas faz o cabelo crescer?
- Redação Saúde Minuto
- 17/08/2026
- Beleza Saúde
Quem nunca ouviu que “basta cortar as pontas para o cabelo voltar a crescer saudável”? O conselho atravessa gerações, mas será que ele tem fundamento científico?
A resposta é sim, com algumas ressalvas. Cortar as pontas não acelera o crescimento do cabelo, já que o crescimento acontece na raiz. No entanto, remover os fios danificados ajuda a evitar que o desgaste avance pelo comprimento do cabelo, preservando sua aparência e reduzindo a quebra.
Segundo estudos de biomecânica capilar, as pontas duplas, conhecidas pelos dermatologistas como tricoptilose, surgem quando a camada externa do fio (cutícula) sofre danos provocados pelo calor excessivo, escovação intensa, procedimentos químicos, radiação ultravioleta e atrito do dia a dia. Uma vez rompida essa estrutura protetora, as fibras internas ficam expostas e podem continuar se separando longitudinalmente.
Para a Dr. Natália Venturelli, especialista em dermatologia, a principal confusão está em associar o corte ao processo biológico de crescimento. “O cabelo cresce a partir do folículo piloso, que está localizado no couro cabeludo. Portanto, cortar a haste do fio não acelera a atividade do folículo. O que o corte faz é remover uma região que já apresenta desgaste estrutural e que tem maior tendência à quebra”, explica.
Segundo a especialista, essa diferença é importante para compreender por que muitas pessoas têm a impressão de que o cabelo passou a crescer mais depois de cortar as pontas. “Quando eliminamos áreas muito danificadas, diminuímos a quebra ao longo do comprimento. Assim, a pessoa consegue reter uma parcela maior do crescimento que já ocorreu na raiz. Isso pode dar a sensação de que o cabelo está crescendo mais rápido, quando, na realidade, ele está quebrando menos”, afirma.
O fio consegue se regenerar?
Infelizmente, não.
Ao contrário da pele, o cabelo é formado por células queratinizadas sem atividade metabólica. Isso significa que um fio já danificado não consegue “cicatrizar”. Produtos cosméticos podem melhorar temporariamente a aparência, reduzir o frizz e unir as pontas de forma superficial, mas não reconstroem definitivamente a fibra capilar.
Dra. Natália explica que a diferença entre aparência e recuperação estrutural precisa ser considerada. “A fibra capilar não possui capacidade biológica de regeneração como ocorre em um tecido vivo. Quando a cutícula e as estruturas internas do fio sofrem uma ruptura significativa, não existe um processo natural de cicatrização. Os produtos conseguem melhorar a superfície e a maleabilidade, mas isso não significa que o dano tenha sido biologicamente reparado”, ressalta.
Então por que cortar ajuda?
Embora a tesoura não interfira na velocidade de crescimento dos fios, ela remove a parte mais fragilizada.
Pesquisas mostram que, quando uma ponta dupla permanece no cabelo, o dano mecânico pode continuar avançando ao longo da fibra, aumentando a quebra e fazendo com que seja necessário retirar um comprimento ainda maior no futuro.
“Uma ponta dupla não deve ser entendida apenas como uma alteração estética. Ela indica que a estrutura daquela região do fio já está comprometida. Se o desgaste continuar, a fissura pode avançar pelo comprimento e aumentar a fragilidade da haste”, explica Natália.
É por isso que dermatologistas costumam recomendar aparar regularmente as pontas, principalmente em cabelos longos, descoloridos ou submetidos frequentemente ao calor.
Para a dermatologista, a frequência do corte deve levar em conta as características e a rotina de cada pessoa. “Não existe uma periodicidade universal que sirva para todos. Cabelos submetidos a descoloração, alisamentos, uso frequente de fontes de calor ou agressões mecânicas podem exigir uma atenção maior às pontas. O mais importante é observar sinais de quebra, ressecamento e alteração da textura”, orienta.
Como evitar as pontas duplas?
Os estudos apontam que a prevenção é muito mais eficaz do que tentar reparar o dano depois que ele aparece.
Entre os principais cuidados estão:
- reduzir o uso de chapinha, babyliss e secador em temperaturas muito altas;
- utilizar protetor térmico antes das ferramentas de calor;
- evitar escovação agressiva, principalmente com os fios secos;
- limitar procedimentos químicos repetitivos;
- hidratar regularmente os fios;
- proteger o cabelo da exposição solar prolongada.
De acordo com a Dra. Natália, os hábitos cotidianos podem fazer diferença significativa na preservação da fibra. “O cuidado com o cabelo precisa considerar o conjunto de agressões a que o fio é submetido. Calor, química, tração, atrito e exposição ambiental podem se somar ao longo do tempo. Reduzir esses fatores é uma estratégia mais eficiente do que tentar corrigir posteriormente um dano já estabelecido”, afirma.
A dermatologista também destaca a importância de evitar o excesso de procedimentos. “Não é necessário abandonar ferramentas de calor ou tratamentos cosméticos, mas é importante utilizá-los com critério. Temperatura adequada, proteção térmica, intervalos entre procedimentos químicos e manipulação delicada ajudam a reduzir o desgaste da fibra”, explica.
O que dizem os estudos?
Um trabalho publicado na revista Journal of Cosmetic Chemists of Japan mostrou que as pontas duplas surgem principalmente em consequência das alterações estruturais da fibra capilar provocadas pelo desgaste mecânico durante a escovação. Os pesquisadores também observaram que cabelos submetidos a procedimentos químicos apresentam maior predisposição ao problema.
Mais recentemente, um estudo publicado na revista Royal Society Open Science conseguiu reproduzir, em laboratório, a formação das pontas duplas e demonstrou que, em cabelos mais fragilizados, as fissuras podem se iniciar dentro da própria fibra e se propagar longitudinalmente, explicando por que os danos tendem a piorar quando não são tratados.
Para Natália, os estudos ajudam a explicar por que a prevenção continua sendo o principal caminho. “A formação das pontas duplas está relacionada a alterações físicas da fibra capilar. Quando entendemos que o dano pode se propagar longitudinalmente, fica mais claro por que a prevenção do desgaste e a remoção das áreas já comprometidas são importantes para preservar o comprimento”, afirma.
Vale a pena cortar?
A ciência mostra que sim.
Cortar as pontas não faz o cabelo crescer mais rápido, mas ajuda a manter os fios íntegros por mais tempo, reduz a quebra e melhora o aspecto geral do cabelo. Já os cosméticos têm um papel importante na prevenção e no disfarce das pontas duplas, mas não conseguem reparar permanentemente uma fibra que já foi rompida.
“O corte não é um acelerador do crescimento capilar, mas uma ferramenta para preservar o comprimento e a qualidade estética dos fios. Quando associado a uma rotina adequada de cuidados, ele ajuda a controlar a progressão dos danos e a manter o cabelo com aparência mais saudável”, conclui a Dra. Natália Venturelli.
Texto por: Érika Kwiek

