É verdade que masturbação afeta a saúde dos rins? Nefrologista explica
- Maria Luiza Cesario
- 13/03/2026
- Assuntos Delicados Nefrologia Rins
Especialista esclarece mito antigo e explica o que a ciência realmente diz sobre masturbação e saúde renal.
Celebrado em 12 de março, o Dia Mundial do Rim chama atenção para a importância de cuidar da saúde renal e também para combater mitos que ainda circulam sobre o funcionamento desses órgãos. Um deles envolve a crença de que a masturbação poderia prejudicar os rins, ideia antiga que, segundo a medicina moderna, não tem qualquer fundamento científico.
De acordo com a nefrologista Dra. Daphnne, da Fenix Nefrologia, não há evidência de que a masturbação cause insuficiência renal, inflamação nos rins ou perda significativa de nutrientes. Um dos argumentos mais comuns que sustenta esse mito é a suposta “perda de nutrientes” durante a ejaculação. No entanto, estudos mostram que a quantidade de proteína presente no sêmen é mínima, cerca de 0,25 grama por ejaculação, quantidade facilmente reposta pela alimentação cotidiana e sem impacto relevante para o organismo.
Ou seja, sob a perspectiva da nefrologia, não existe relação entre masturbação e dano renal.
Apesar disso, alguns estudos científicos investigaram se a atividade sexual poderia influenciar a eliminação de cálculos urinários. Um ensaio clínico publicado na revista International Urology and Nephrology avaliou 128 homens com cálculo ureteral distal entre 5 e 10 milímetros.
Os participantes foram divididos em três grupos: um que praticava masturbação três a quatro vezes por semana, outro que recebeu tratamento com o medicamento tamsulosina e um terceiro que recebeu apenas tratamento padrão.
Os resultados mostraram que a taxa de expulsão das pedras foi de 81,4% no grupo que praticava masturbação, 80,5% no grupo tratado com tamsulosina e 43,2% no grupo controle. Isso significa que a eliminação espontânea do cálculo foi significativamente maior nos dois primeiros grupos.
A hipótese envolve mudanças que ocorrem no organismo durante a excitação e o orgasmo, como a liberação de óxido nítrico e o relaxamento da musculatura lisa do ureter, canal que leva a urina dos rins até a bexiga. Essas alterações poderiam facilitar a passagem de cálculos muito pequenos que já estejam em deslocamento pelo trato urinário.
Ainda assim, a nefrologista ressalta: “Apesar de ser um achado curioso, a masturbação ainda não faz parte das recomendações médicas para o tratamento de cálculos renais”, explica a Dra. Daphnne.
Por isso, a prevenção e o tratamento das pedras nos rins continuam baseados em medidas com forte respaldo científico, como hidratação adequada, alimentação com controle de sal e proteínas, avaliação metabólica em pessoas que já tiveram cálculos e acompanhamento médico quando necessário.
Outra dúvida comum envolve dores na região lombar após atividade sexual ou masturbação. Na maioria das vezes, o desconforto está relacionado à tensão muscular ou postura inadequada, e não aos rins. A dor renal típica costuma ser intensa e em forma de cólica, podendo irradiar para o abdômen ou para a virilha e vir acompanhada de sintomas como náusea, alterações urinárias ou sangue na urina. Nesses casos, a avaliação médica é fundamental.
A crença de que masturbação prejudica os rins faz parte de um conjunto de mitos antigos sobre sexualidade, muitos deles originados de tabus culturais. Em algumas tradições antigas, por exemplo, o sêmen era visto como uma substância vital cuja perda poderia enfraquecer o organismo. Como os rins eram simbolicamente associados à energia sexual em algumas culturas, surgiu a ideia equivocada de que a masturbação poderia “sobrecarregar” esses órgãos. Hoje, a medicina já descartou essa associação.
Quando surgem sintomas como dor lombar intensa, febre, ardência ao urinar ou sangue na urina, o problema provavelmente está relacionado a alguma condição do sistema urinário que precisa ser investigada por um médico, e não à masturbação.
Mesmo diante de estudos que sugerem possíveis benefícios indiretos na eliminação de pequenos cálculos, a nefrologista reforça que a prática não é indicada como tratamento. “Apesar de ser bom, e até um achado interessante em alguns estudos, a masturbação ainda não é parte da recomendação médica”, conclui a Dra. Daphnne.