Hikikomori: por que cada vez mais jovens preferem ficar em casa?
- Redação Saúde Minuto
- 09/08/2026
- Saúde
O fenômeno descrito no Japão ainda é raro no Brasil, mas psicólogos alertam para um comportamento que tem se tornado cada vez mais comum entre adolescentes e jovens adultos: trocar o mundo real pelas conexões da tela.
Depois da pandemia, muita gente descobriu o prazer de passar mais tempo em casa. Maratonar séries, conversar pelo celular e resolver praticamente tudo sem sair do quarto virou parte da rotina. Mas quando esse comportamento deixa de ser uma preferência e passa a limitar a vida, acende um sinal de alerta.
É justamente essa mudança que tem chamado a atenção dos especialistas. Em alguns casos, ela lembra o hikikomori, termo criado no Japão para descrever pessoas que vivem em isolamento social extremo e voluntário durante meses ou até anos.
Embora os casos clássicos ainda sejam considerados raros fora do país asiático, psicólogos observam que alguns comportamentos semelhantes já aparecem entre adolescentes e jovens brasileiros. A diferença é que, em vez do isolamento absoluto, muitos passam a evitar encontros presenciais, preferem manter amizades apenas pelas redes sociais e encontram dentro de casa um lugar cada vez mais confortável para permanecer.
Para Ticiana Paiva, doutora em Psicologia e head de Psicologia da Starbem, a pandemia acelerou uma transformação silenciosa na forma como a nova geração se relaciona.
“O hikikomori, da forma como foi descrito no Japão, ainda é relativamente raro. Mas o comportamento que está por trás dele já faz parte da nossa realidade. Vejo cada vez mais jovens que evitam encontros presenciais, preferem resolver tudo pela tela e encontram em casa uma sensação de proteção diante de um mundo que parece cada vez mais exigente”, explica.
Quando o refúgio vira prisão
Ficar em casa, por si só, não é um problema. O ponto de atenção surge quando o isolamento deixa de ser uma escolha e começa a interferir nos estudos, no trabalho, nas amizades e até nas relações familiares.
“A pandemia mudou a forma como nos relacionamos. O que antes era uma exceção passou a ser visto como normal. Hoje, dizer ‘prefiro ficar em casa’ dificilmente causa estranhamento. Mas nem todo isolamento representa descanso. Às vezes, ele é uma forma de fugir da ansiedade, do medo da rejeição ou da dificuldade de lidar com as relações. Quando isso acontece, a casa deixa de ser um refúgio e passa a funcionar como uma prisão”, afirma a psicóloga.
Por que isso acontece justamente entre os mais jovens?
Os casos descritos na literatura costumam surgir durante a adolescência e o início da vida adulta, uma fase marcada pela construção da identidade, da autonomia e das relações sociais.
No Japão, estudos apontam maior frequência entre homens. Já no Brasil, ainda não existem estatísticas consolidadas, mas profissionais de saúde mental relatam um aumento de comportamentos semelhantes, especialmente entre integrantes da Geração Z, que cresceram em um mundo hiperconectado e tiveram parte da vida social interrompida pela pandemia.
Para os especialistas, a tecnologia não é a vilã da história. O problema aparece quando ela substitui quase completamente as experiências presenciais e faz com que o contato com o mundo exterior pareça cada vez mais difícil.