Mitomania: quando mentir se torna uma compulsão
- Redação Saúde Minuto
- 01/04/2026
- Saúde
No dia 1º de abril, conhecido em muitos países como o Dia da Mentira, é comum vermos brincadeiras, trotes e histórias inventadas circulando entre amigos. Mentir, em alguns contextos, pode até cumprir uma função social, como evitar magoar alguém ou preservar vínculos. No entanto, mentiras frequentes e elaboradas podem ser um alerta para algo mais profundo: um padrão comportamental que merece atenção.
A psicóloga Marilene Kehdi, especialista em atendimento clínico, explica que a chamada mitomania, ou mentira patológica, não deve ser entendida de forma simplista.
“A mitomania, ou mentira patológica, refere-se a um padrão compulsivo e recorrente de mentiras. O indivíduo mente compulsivamente, muitas vezes sem um motivo claro ou benefício pessoal aparente. Diferente da mentira social, que costuma ter uma finalidade, como obter alguma vantagem ou escapar de um evento que não quer ir, o mitomaníaco mente sem um objetivo definido e, principalmente, sem sentir culpa. Em muitos casos, pode até acreditar nas próprias histórias que inventa”, explica a psicóloga.
É importante destacar que a mitomania não é, necessariamente, classificada como um transtorno psicológico isolado nos principais manuais diagnósticos. Em geral, costuma estar associado a outros quadros, especialmente transtornos de personalidade, como narcisista, borderline, histriônico e antissocial, além de poder aparecer em contextos de ansiedade.
O que está por trás desse comportamento?
Esse padrão não surge de forma isolada e não tem uma única causa. Ele costuma ser resultado da combinação de fatores sociais, psicológicos e biológicos.
- Fatores sociais: ambientes com alta cobrança ou pouca validação emocional, histórico de relações familiares disfuncionais e situações em que mentir foi reforçado como estratégia para obter atenção ou evitar punições.
- Fatores psicológicos: baixa autoestima, insegurança, traumas de infância, necessidade intensa de atenção e dificuldade em lidar com frustrações ou rejeição. A mentira pode funcionar como um mecanismo de defesa, uma tentativa de criar uma identidade mais valorizada ou de escapar de uma realidade considerada dolorosa ou insatisfatória.
- Fatores biológicos: dificuldades no controle de impulsos, possíveis desequilíbrios neuroquímicos e funcionamento de áreas do cérebro relacionadas à tomada de decisão e ao controle.
Como identificar a mitomania?
Pessoas que apresentam esse comportamento costumam contar histórias muito exageradas e elaboradas, que fogem da realidade. Quando questionadas, tendem a responder de forma rápida e igualmente detalhada, muitas vezes se colocando como protagonistas, vítimas ou heróis. Também podem apresentar versões diferentes da mesma história.
Com o tempo, tornam-se mais evidentes as inconsistências, a repetição do comportamento e a falta de coerência nas narrativas, o que pode comprometer a confiança nas relações.
Existe tratamento?
O tratamento psicológico é fundamental para compreender as origens desse padrão patológico de comportamento e desenvolver novas formas de lidar com as emoções e relações. Pessoas que apresentam a mitomania tendem a sofrer consequências importantes, como perda de credibilidade, quebra de confiança, afastamento social, além de sintomas como ansiedade e depressão.
“O apoio de amigos e familiares é muito importante para incentivar o indivíduo com mitomania a buscar ajuda especializada e aderir ao tratamento. Isso permite a compreensão das origens do comportamento, favorecendo o desenvolvimento de maior consciência sobre si mesmo e a construção de estratégias para o controle”, ressalta a psicóloga Marilene Kehdi.
Mais do que interromper a mentira, trata-se de reconstruir a relação com a própria verdade, interna e externa.
Texto por: Marilene Kehdi