Teatro que transforma: Claudia Raia e a desmistificação da menopausa em sua nova comédia musical
- Redação Saúde Minuto
- 24/06/2025
- Bem-estar Saúde
Falar sobre menopausa foi, e ainda é, um grande tabu, já que as mulheres não foram
ensinadas a abraçar essa fase da vida. Pelo contrário: muitas vezes, foram silenciadas
por suas famílias e até pelos próprios profissionais de saúde, vivendo em conflito com o
próprio corpo. Rodeado de mitos e vergonha, esse período tão importante na vida da
mulher, por muito tempo foi tratado como uma sentença de finitude, mas neste ano, o
teatro conseguiu devolver a ele um olhar de esperança.
Para começo de conversa, o que é a menopausa? Menopausa é o nome que se dá
à última menstruação da mulher, confirmada após 12 meses consecutivos sem
menstruar. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), esse período é definido
como “a fase da vida da mulher que cessa a capacidade reprodutiva” e acontece, em
média, por volta dos 50 anos, podendo variar entre os 45 e 55 anos, ou ocorrer antes, no
caso de menopausa precoce. Estima-se que cerca de 30 milhões de mulheres vivam
atualmente no climatério e na pós-menopausa, o que representa cerca de 7,9% da
população feminina brasileira.
E é no palco que a comédia “Cenas da Menopausa”, estrelada por Claudia Raia e Jarbas
Homem de Mello, dá vida a esse tema que afeta grande parte da população feminina no
Brasil. De forma leve, divertida e bem-humorada, a peça retrata os desafios, as
mudanças e os sintomas que acompanham quem atravessa essa fase, mostrando que há
vida e liberdade no segundo ato da mulher, durante e após o tratamento da menopausa.
Os sintomas retratados na ficção não são poucos e nem são exagerados ou hiperbólicos.
Quando a mulher entra no climatério, a fase de transição entre o período fértil e o não
reprodutivo, os níveis dos hormônios estrogênio e progesterona caem. Como
consequência, surgem os fogachos, a insônia, as alterações de humor, o nervosismo e a
queda da libido — alguns dos principais efeitos dessa transformação hormonal.
Na peça, esses desconfortos aparecem de forma divertida, como em uma das cenas onde
uma das personagens não consegue dormir por conta do calor, e fala brincando “Meu
corpo é a minha casa… e a casa tá pegando fogo!” E quem vive isso na vida real sabe que,
por trás do riso, existe uma busca constante por soluções que amenizem esses sintomas.
Um dos tratamentos mais recomendados é a terapia de reposição hormonal (TRH), que
consiste em repor os hormônios que deixam de ser produzidos naturalmente durante o
climatério e a menopausa. Segundo o médico especialista Dr. André Vinícius, que estava
presente durante a estreia de “Cenas da Menopausa,” “a reposição hormonal na
menopausa pode desempenhar um papel crucial na melhoria da vida de muitas
mulheres, abordando os sintomas desconfortáveis e prevenindo complicações a longo
prazo, como a osteoporose.”
No Brasil, apenas metade das mulheres na menopausa fazem algum tratamento e
apenas 22% das mulheres na menopausa fazem uso da terapia de reposição hormonal. O
baixo número se deve, principalmente, à falta de informação, ao medo de efeitos
colaterais e ao acesso limitado à saúde. A TRH deve ser uma decisão feita junto ao
médico, após avaliação individual. Para quem não possui contra indicações, costuma ser
uma opção segura, com benefícios que, na maioria dos casos, superam os riscos.
Claudia reforça a importância da TRH e traz esse debate para o palco ao conduzir a
trajetória de sua personagem, que descobre que há vida e solução para os sintomas
desconfortáveis que a queda hormonal pode causar – e, acima de tudo, que ela continua
sendo a mesma mulher, apesar das transformações cruciais que seu corpo atravessa
nessa fase.
Por meio de pequenos números musicais e diversas histórias autobiográficas, Claudia e
Jarbas interpretam o texto assinado por Anna Toledo e transformam arte em um apelo à
saúde pública. Ao final de cada sessão, o teatro se transforma em um espaço de
acolhimento para mulheres contarem seus relatos sobre a menopausa e médicos
especialistas compartilharem seus conhecimentos sobre o assunto.
“Esse espetáculo, que iria ser apenas uma comédia, está se tornando um serviço público,
e com a comédia a gente está tocando o coração de muitas pessoas em um lugar muito
dolorido, muito nevrálgico” disse Claudia ao final da sessão de estreia em São Paulo.
Ao apresentar a menopausa e seus sintomas de uma forma tão real, “Cenas da
Menopausa” acaba não só atraindo o público feminino na casa dos 40 anos, mas sim um
demográfico de todas as idades e identidades de gênero.
Assistindo à peça, no auge dos meus 22 anos, me peguei refletindo sobre como tudo
aquilo ressoou em mim. Percebi que, embora fale diretamente sobre a menopausa, é
também uma obra sobre autocuidado, amor-próprio e aceitação. No fim das contas, é
um lembrete em forma de música e riso de que nosso corpo é a nossa casa, e amar essa
casa, em todas as suas fases e transformações, é um ato de resistência e de carinho.
O teatro, com sua força de provocar reflexão e empatia através da arte, se tornou um
grande aliado na desconstrução dos tabus que ainda cercam a menopausa e provou que
o segundo ato da mulher na vida real é, assim como no teatro, o melhor ato, com novas
histórias ainda a serem contadas.
“Cenas da Menopausa” está em cartaz no Teatro Claro Mais São Paulo até agosto.