[Especial Janeiro Branco] Positividade tóxica
- Redação Saúde Minuto
- 24/01/2022
- Saúde Mental
“Play no jogo do contente”
Em tempos de jogos online, recordei-me do jogo da personagem Pollyanna do livro de Eleanor H. Porter (1913). O “jogo do contente” foi inventado por seu pai para que a menina, em qualquer situação, conseguisse encontrar um motivo para ficar contente. E assim se desenrola a história de menina que fica órfã, criada por uma tia severa na busca por “encontrar algo pelo que estar sempre feliz”.
Um século depois vemos um fenômeno muito semelhante ao princípio do jogo de Pollyanna, hoje conhecido como Positividade Tóxica. Este fenômeno tem como característica a exaltação do lado positivo, acompanhado pela postura de negar e/ou invalidar aspectos negativos da vida. No dia a dia, estas invalidações de sentimentos como tristeza, raiva, cansaço, aparecem em frases como:
“Seja positivo!”, “Anime-se!” ou “Olhe pelo lado bom!”.
“Tudo vai ficar bem” ou “Tudo vai dar certo”.
“Mas, você está vivo.” Ou “Seja produtivo”
Somos levados a acreditar num estado de felicidade constante e a nos esforçarmos para encontrar, “o lado bom” de qualquer coisa, em especial as ruins. É como viver no “mode on” “do jogo do contente”.
Este não é um fenômeno contemporâneo. No entanto, hoje, as redes sociais têm um papel importante para consolidar esta crença, de que existe vida sem sofrimento.
“Como nos filtros do Instagram, a vida parece perfeita, perfeitamente fabricada.”
Para sustentar este ideal, publicamos nossas conquistas, momentos felizes, as viagens por lugares lindos, os melhores “looks”. E da mesma forma segue nosso discurso. Como nos filtros do Instagram, a vida parece perfeita, perfeitamente fabricada. Até que passamos a acreditar no filtro, passando a confundir idealização e realidade. Chegamos à exaustão na corrida pelo primeiro lugar para ostentar troféus de felicidade. Como aquela criança que cobre olhinhos com as mãos e acredita que os pais não podem enxergá-la, tentamos esconder o que é inerente do existir. Todos nós sentimos dor, tristeza, inveja, medo, raiva, vergonha. Mas temos que esconder para não sermos vistos como fracassados e inferiores.
Negar nossos sentimentos, fugir dos problemas pode funcionar por um período de tempo, mas em algum momento precisaremos “nos anestesiar” para manter a ilusão. Chegando, muitas vezes, a usar substâncias psicoativas e álcool para aliviar o peso de se manter no jogo.
Lembro-me de uma paciente que todas as noites se drogava para suportar o dia seguinte, onde ela fingia ser outra pessoa para atender as expectativas sociais.
É possível pausar o jogo e ainda se divertir?
Eu diria que sim. Basta compreender que viver consiste em aprendizado, em experimentações diversas. Experiências dolorosas e experiências felizes. Não precisamos mais nos esconder. Podemos expressar e acolher nossos sentimentos.
Uma positividade funcional reconhece o que não nos faz bem, impulsionando-nos em direção ao que é melhor para cada um de nós em cada situação. Por exemplo, esta positividade me permite sentir a tristeza pelo fim de um namoro, mas acreditar que poderei me relacionar com alguém novamente. Acontece a integração de ambos os sentimentos: tristeza e esperança.
Como nos proteger da toxicidade?
Gosto da metáfora do veneno para ilustrar que o problema não é a positividade. A diferença entre o veneno e o remédio está na dose. Logo, ela pode ser funcional ou disfuncional/tóxica. Manter uma postura flexível para consigo e com a vida, isto contribui para acertar na dosagem.
Algumas sugestões
- Cuidado com redes sociais, especialmente com a glamourização da positividade.
- Invista em relações que respeitem e validem seus sentimentos.
- Não compare sua vida (real) com a vida perfeita (possivelmente fabricada) das postagens alheias.
- Seja acolhedor com todos seus sentimentos, por mais desagradáveis que sejam.
Se sentir que a positividade tóxica o afetou e está com dificuldades para lidar com seus sentimentos, procure ajuda de um profissional da saúde mental.
Texto por Ana Faustino | Psicóloga
CRP 06/141407