Fazer cocô com supositório virou rotina? Seu intestino pode estar dando um alerta
- Redação Saúde Minuto
- 26/08/2026
- Saúde
O intestino trava ou a barriga incomoda por não conseguir evacuar. Os dias passam e nada de conseguir ir ao banheiro. Para resolver rapidamente, muita gente abre a gaveta e recorre ao supositório ou ao laxante que “sempre funciona”. O alívio pode até chegar. Mas, se isso está acontecendo com frequência, talvez o problema não seja simplesmente fazer o intestino funcionar a qualquer custo.
“Constipação recorrente é um sintoma. E o mais importante é descobrir o que está por trás dela, principalmente se funcionava bem antes e existiu mudança no hábito intestinal”, aponta a gastroenterologista e professora de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi Carla Maria Rodrigues.
De acordo com o National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases (NIDDK), a prisão de ventre pode ter diversas causas, incluindo pouca ingestão de fibras e líquidos, alguns medicamentos, alterações no assoalho pélvico, diabetes, hipotireoidismo e doenças do aparelho digestivo. Em alguns casos, até obstruções e tumores podem provocar alterações no funcionamento intestinal.
O que o supositório faz, afinal?
Depende do princípio ativo.
Supositórios de glicerina, por exemplo, atuam no reto e facilitam a evacuação. Já o bisacodil é um laxante estimulante que aumenta a atividade intestinal.
Ou seja, o produto pode ajudar a resolver aquele episódio de constipação. Isso é diferente de tratar a razão (causa) pela qual a pessoa está ficando constipada repetidamente.
“O sinal amarelo acende quando o supositório deixa de ser uma solução eventual e passa a fazer parte da rotina. Se você começa a pensar ‘sem isso eu não consigo ir ao banheiro’, está na hora de investigar”, alerta a médica.
O intestino fica “preguiçoso”?
Essa expressão é popular, mas simplifica demais o problema.
Não é correto afirmar que todo uso de laxante ou supositório faça o intestino simplesmente “esquecer” como evacuar.
O que pode acontecer é a pessoa passar a depender daquele recurso para conseguir evacuar sem que a causa original tenha sido corrigida. O próprio NIDDK recomenda que quem utiliza laxantes há muito tempo e não consegue evacuar sem eles converse com um médico sobre a retirada adequada.
Além disso, dependendo do produto, uso inadequado pode provocar cólicas, diarreia, desconforto e irritação na região anal ou retal.
Ou seja: forçar repetidamente uma saída não necessariamente resolve o problema que está acontecendo alguns centímetros ou até metros acima.
O maior risco pode ser mascarar o problema
Talvez esse seja o ponto mais importante.
Imagine uma pessoa que passa meses tratando a constipação por conta própria. Usa supositório hoje, laxante amanhã, chá no fim de semana e continua levando a vida.
Ela consegue evacuar e conclui que o problema está resolvido.
Só que a constipação continua voltando.
Alterações persistentes do hábito intestinal merecem investigação porque podem ter inúmeras causas. E alguns sinais não devem ser tratados apenas com uma nova dose de laxante.
“Os sinais de alerta, também chamados de sinais vermelhos, são sangue nas fezes, evacuar sangue sozinho ou ver sangue no vaso ou no papel na higienização, dor abdominal persistente, vômitos, febre, incapacidade de eliminar gases ou perda de peso sem explicação. Estes sintomas indicam avaliação médica”, afirma Carla. Não deixe para depois: o sangramento intestinal, por exemplo, pode estar relacionado a condições tão diferentes quanto hemorroidas, fissuras, divertículos, inflamações, pólipos e câncer colorretal.
“Mas o meu laxante é natural”
Natural não é sinônimo de inofensivo.
Chás, ervas e produtos à base de plantas também possuem substâncias biologicamente ativas. Alguns laxantes vegetais, como os derivados do sene, têm ação estimulante sobre o intestino.
Isso significa que podem provocar cólicas e diarreia e não deveriam ser usados indiscriminadamente só porque vieram de uma planta.
O mesmo raciocínio vale para suplementos e produtos vendidos para “limpar”, “desintoxicar” ou “regular” o intestino.
Se existe uma necessidade frequente de usar alguma coisa para conseguir evacuar, o objetivo deveria ser descobrir a causa, e não simplesmente encontrar um produto mais natural para continuar provocando a evacuação.
Existe laxante seguro?
Existem diferentes classes de laxantes, e cada uma funciona de uma maneira.
Há suplementos de fibras, laxantes osmóticos, amolecedores de fezes, lubrificantes e estimulantes. Isso significa que o laxante que funciona para uma pessoa pode não ser a melhor escolha para outra.
O NIDDK orienta que laxantes podem ser recomendados por profissionais de saúde por períodos determinados e destaca que os estimulantes devem ser reservados a situações específicas, como constipação importante ou quando outras medidas não funcionaram.
Por isso, usar repetidamente o medicamento que estava no armário, copiar a receita de outra pessoa ou trocar um laxante farmacêutico por um chá “natural” não resolve a questão central.
Antes do supositório, vale olhar para a rotina
Em muitos casos, medidas bem menos dramáticas ajudam o intestino a funcionar melhor.
Consumir fibras suficientes, beber líquidos adequadamente, manter atividade física e respeitar a vontade de evacuar fazem parte das recomendações para prevenção e tratamento da constipação.
Criar uma rotina para ir ao banheiro também pode ajudar algumas pessoas.
Mas existe um limite para o “faça você mesmo”.
Se a prisão de ventre persiste, mudou recentemente, está piorando ou exige laxantes e supositórios repetidamente, vale procurar um gastroenterologista ou outro profissional habilitado para descobrir a causa.
Porque conseguir evacuar depois de colocar um supositório pode trazer alívio.
Mas, se o seu intestino só funciona quando recebe um empurrãozinho, a pergunta mais importante não é “qual laxante funciona melhor?”. É: por que ele parou de funcionar sozinho?
Texto por: Dra. Carla Maria Rodrigues, gastroenterologista e professora de Medicina da Universidade Anhembi Morumbi
CRM-SP: 91566 /RQE 91210

