Miscigenação brasileira pode ser chave para longevidade, aponta estudo da USP
- Redação Saúde Minuto
- 07/01/2026
- Saúde
A miscigenação característica da população brasileira pode estar diretamente associada à longevidade e à boa qualidade de vida em idades extremas. Essa é a principal conclusão de um estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da Universidade de São Paulo (Genoma USP), publicado nesta terça-feira (6) na revista científica Genomic Psychiatry.
A pesquisa analisa o perfil genético de idosos muito longevos, incluindo supercentenários — pessoas com mais de 110 anos, e sugere que a diversidade genética resultante da mistura entre europeus, africanos, povos indígenas e, em menor escala, asiáticos pode funcionar como um fator de proteção biológica, favorecendo tanto a longevidade quanto a manutenção da saúde física e cognitiva.
De casos raros na pandemia a um grande banco genético
O estudo teve início durante a pandemia de Covid-19, quando pesquisadores analisaram três supercentenários brasileiros que contraíram o vírus e se recuperaram, mesmo pertencendo ao grupo de maior risco. “Já naquela época era algo extraordinário observar a recuperação de uma doença grave nessa faixa etária”, afirma Mateus Vidigal, pesquisador do Genoma USP e primeiro autor do artigo.
Com o avanço do projeto, a Covid-19 deixou de ser um critério de seleção. Atualmente, o levantamento reúne 160 participantes com 95 anos ou mais, sendo 20 supercentenários. Todos passam por entrevistas clínicas detalhadas, coleta de sangue e acompanhamento periódico, geralmente anual, para monitorar possíveis mudanças no estado de saúde.
Segundo os pesquisadores, muitos desses idosos permanecem estáveis ao longo dos anos, com baixo declínio funcional. Quando ocorrem óbitos, em geral, são por causas naturais associadas à idade avançada.
Genética e qualidade de vida caminham juntas
O foco central do estudo é compreender os fatores genéticos que permitem que algumas pessoas ultrapassem os 100 anos mantendo autonomia, lucidez e boa condição clínica, enquanto outras desenvolvem doenças neurodegenerativas ou tornam-se dependentes.
“Nós queremos entender a genética por trás da longevidade e da qualidade de vida, porque há muitos centenários que estão muito bem de saúde”, explica Vidigal. As análises mostram que genes já associados à longevidade em populações europeias também aparecem entre os brasileiros estudados, mas com variações específicas, possivelmente ligadas à miscigenação.
O Brasil, inclusive, tem se destacado em rankings globais de longevidade. Em 2024, o homem e a mulher mais longevos do mundo eram brasileiros. Atualmente, o título de homem mais velho do planeta pertence ao cearense João Marinho Neto, de 113 anos, reconhecido pelo Guinness World Records.
Evidências familiares reforçam papel genético
Outro dado que fortalece a hipótese genética é a recorrência da longevidade em determinadas famílias. Um dos casos acompanhados pelo Genoma USP envolve uma mulher de 110 anos e três sobrinhas centenárias, com idades entre 100 e 106 anos, vivendo em localidades diferentes.
“O ambiente foi distinto, mas todas ultrapassaram os 100 anos, o que reforça o papel da genética”, destaca Vidigal.
Perspectivas futuras: da pesquisa ao tratamento
O objetivo final do estudo é identificar com precisão quais genes estão associados à longevidade e à preservação da saúde. A partir desses achados, os pesquisadores vislumbram a possibilidade de desenvolver fármacos capazes de modular vias genéticas, permitindo que os benefícios observados nos super idosos possam, no futuro, ser estendidos a pessoas que não possuem naturalmente esse perfil genético.
Mais do que viver mais, o estudo aponta para um caminho em que envelhecer com qualidade, autonomia e saúde se torne uma realidade cada vez mais acessível e a diversidade genética brasileira pode ser uma peça-chave nesse processo.