Você consegue enganar o seu cérebro?
- Fabricio Colli
- 12/02/2025
- Curiosidades Neurologia Saúde
O efeito placebo revela o poder da mente sobre o corpo, descubra como a crença no tratamento pode influenciar a mente e gerar impactos reais no corpo.
O efeito placebo é um fenômeno psicológico e fisiológico no qual uma pessoa experimenta uma mudança em sua condição de saúde, mesmo após receber um tratamento inerte sem princípio ativo (como um comprimido de açúcar ou uma injeção de solução salina). Essa mudança, geralmente positiva, ocorre porque a pessoa acredita que está recebendo um tratamento eficaz.
Esse fenômeno está relacionado à expectativa e ao condicionamento do cérebro. Quando alguém acredita que um medicamento ou procedimento irá surtir efeito em seu organismo, o cérebro pode liberar substâncias químicas, como endorfinas e dopamina, que aliviam sintomas e geram sensações de bem-estar.
Como ocorre no cérebro?
Segundo o Dr. Júlio Pereira, neurocirurgião pelos hospitais Sírio Libanês e Beneficência Portuguesa, o efeito placebo envolve vários neurotransmissores e áreas do cérebro. Essas são responsáveis pelas sensações de alívio ou melhora nos sintomas (dopamina), redução da dor e do estresse (endorfina), regulação do humor, ansiedade e dor que pode influenciar a percepção dos sintomas e a resposta ao tratamento (serotonina).
Em relação às principais áreas do cérebro envolvidas podemos destacar o córtex pré-frontal, núcleo accumbens, hipocampo (memória), córtex somatossensorial, e o sistema límbico. Essas regiões são responsáveis por funções como tomada de decisões, recompensa, interpretação dos sintomas e resposta emocional ao tratamento.
“Essas áreas e neurotransmissores trabalham juntos para criar a resposta placebo. A complexidade desse processo explica por que o efeito placebo pode variar amplamente de pessoa para pessoa e de situação para situação.” Explica o Dr. Júlio.
Exemplos do Efeito Placebo
- Medicamentos falsos: pacientes que tomam um comprimido sem princípio ativo, mas relatam redução da dor ou melhora dos sintomas.
- Cirurgias simuladas: em alguns estudos, pacientes submetidos a cirurgias fictícias mostraram recuperação semelhante aos que passaram pelo procedimento real.
- Tratamentos alternativos: alguns métodos sem comprovação científica podem funcionar devido ao efeito placebo, pois as pessoas acreditam que estão sendo tratadas.
A expectativa e a crença desempenham um papel central no efeito placebo. Quando um paciente confia na eficácia de um tratamento, o cérebro ativa esses mecanismos que podem reduzir a percepção de dor e melhorar o humor – processos mediados pela liberação de neurotransmissores benéficos. Essa “autossugestão” positiva pode, inclusive, gerar respostas terapêuticas comparáveis a intervenções farmacológicas em determinadas condições, ressaltando a importância de uma relação de confiança na prática médica.
Como pode ser aproveitado?
Uma importante forma de usar o efeito placebo nos estudos médicos e nos testes clínicos, é o o “Estudo Duplo-Cego”, por ajudar a determinar se um tratamento tem um efeito real além da expectativa do paciente.
Esse método é baseado em um teste no qual nem os participantes, nem os pesquisadores sabem quem está recebendo o placebo ou o tratamento real, essencial para distinguir os efeitos reais do medicamento daqueles que resultam apenas da expectativa. Essa metodologia rigorosa assegura que a eficácia e a segurança dos novos medicamentos sejam comprovadas de forma robusta, contribuindo para a aprovação de tratamentos que realmente beneficiem os pacientes.
O efeito placebo pode ser usado para reduzir o uso de medicamentos?
Em determinadas situações, especialmente em casos de dor crônica, o efeito placebo pode ser explorado como uma estratégia complementar para reduzir a dependência de analgésicos.
“Ao estimular os mecanismos naturais de alívio do corpo, é possível diminuir a necessidade de doses elevadas de medicações, sempre em um plano terapêutico monitorado e baseado em evidências. Essa abordagem integrada pode contribuir para tratamentos mais sustentáveis e com menores efeitos colaterais.” Explica o Dr. Jamil Farhat Neto, neurocirurgião do Hospital Albert Einstein.
O especialista conclui que a ciência tem demonstrado, cada vez mais, o poder da mente no processo de cura. “Entender e integrar o efeito placebo em práticas terapêuticas nos permite desenvolver tratamentos que não apenas combatem os sintomas, mas também promovem um bem-estar integral.”
Efeito placebo x Efeito nocebo
O efeito placebo também pode ocorrer no sentido oposto, chamado de efeito nocebo, quando a pessoa acredita que um tratamento (mesmo inofensivo) causará efeitos colaterais – e acaba apresentando esses sintomas. Isso quer dizer que, se o paciente acreditar que um tratamento terá um efeito negativo, ele pode, desencadear reações indesejadas, por si só.
Profissionais consultados: Dr. Júlio Pereira, neurocirurgião no Hospital Sírio Libanês / Dr. Jamil Farhat Neto, neurocirurgião no Hospital Albert Einstein.
Texto por: Fabricio Colli