A neurociência por trás da conexão entre Alzheimer e AVC ganha destaque em novos estudos
- Redação Saúde Minuto
- 03/01/2026
- Saúde
Neurologista da BP alerta para a relação entre AVC e Alzheimer e fala sobre a necessidade de diagnóstico precoce e cuidado integrado
O acidente vascular cerebral (AVC) e a doença de Alzheimer (transtorno neurodegenerativo progressivo e fatal, caracterizado pela perda de funções cognitivas, como memória e linguagem, e deterioração de atividades diárias) são considerados dois dos maiores desafios neurológicos do século XXI. Há estudos que apontam que o AVC aumenta significativamente o risco de desenvolvimento de demência, incluindo o Alzheimer, devido ao impacto direto na circulação cerebral e na reserva cognitiva.
Segundo Alex Machado Baeta, neurologista clínico da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, o Alzheimer é considerado a principal causa de demência no mundo e vem sendo chamado de a “doença do século”, devido ao impacto direto do envelhecimento populacional. A ausência de cura efetiva e a prevalência crescente representam enormes custos socioeconômicos, além da sobrecarga emocional e física para familiares e cuidadores.
“O Alzheimer simboliza o maior desafio da longevidade. Estamos vivendo mais, mas ainda sem a garantia de preservar nossa autonomia cognitiva. É por isso que o chamamos de a doença do século”, destaca Baeta.
Uma pesquisa do Hospital Universitário Stony Brook (referência em neurocirurgia) publicada em 2024, demonstrou que entre 6% e 32% dos pacientes que sofreram um acidente vascular cerebral desenvolvem algum grau de demência, sendo que de 20% a 25% apresentam o quadro em até cinco anos. O risco é 5,5 vezes maior em comparação a pessoas sem histórico da doença. E isso acontece porque, além dos danos aos vasos sanguíneos, o AVC desencadeia alterações no cérebro, como o acúmulo de proteínas nas áreas lesionadas e o aumento de substâncias que indicam degeneração neural. Esses fatores revelam que a condição carrega características de doenças vasculares e também neurodegenerativas, semelhantes às observadas no Alzheimer.
“O AVC compromete a circulação cerebral e reduz a reserva cognitiva. Quando associado a fatores de risco como hipertensão, diabetes e colesterol elevado, o cérebro fica mais vulnerável a desenvolver quadros de demência, incluindo o Alzheimer. É um elo claro entre doenças vasculares e neurodegenerativas”, afirma Baeta.
A prevenção do declínio cognitivo passa pelo controle rigoroso da pressão arterial, do diabetes e do colesterol, além de hábitos de vida saudáveis, como a prática regular de atividade física, dieta balanceada e abandono do tabagismo. Após o AVC, a reabilitação cognitiva precoce é uma peça-chave para reduzir o risco de deterioração.
“Precisamos atuar em duas frentes: uma focada em reduzir a recorrência do AVC e outra voltada para retardar a evolução da perda cognitiva. Isso significa investir em prevenção vascular e também em estratégias de reabilitação que estimulem a plasticidade cerebral”, reforça Baeta.
No campo terapêutico, os mecanismos mais promissores para a demência pós-AVC incluem o combate à neuroinflamação crônica, a estimulação da plasticidade sináptica e a regulação da deposição de proteínas como beta-amiloide e tau, já reconhecidas na progressão do Alzheimer.
Quando o acidente vascular cerebral e a doença de Alzheimer ocorrem juntos, o declínio cognitivo tende a ser mais rápido e intenso. Esse quadro exige um cuidado integrado, que envolva outras áreas além da neurologia, como a geriatria, reabilitação, neuropsicologia e suporte às famílias. O acompanhamento rigoroso da saúde cardiovascular, aliado à adaptação dos programas de reabilitação física e cognitiva contribui na preservação da autonomia e a qualidade de vida dos pacientes.
Faz parte do processo diagnóstico valorizar a avaliação clínica detalhada, observando alterações de memória, linguagem, atenção, funções executivas e habilidades visuoespaciais. Testes cognitivos de triagem, combinados a exames laboratoriais básicos também ajudam a descartar outras causas e orientam a necessidade de investigação mais aprofundada. Em etapas posteriores, exames de imagem ou métodos complementares podem ser empregados para confirmar o diagnóstico e direcionar o tratamento de forma mais precisa.
“O diagnóstico deve ser construído de forma acessível. Primeiro identificamos sinais clínicos e cognitivos e, só depois, em casos selecionados, avançamos para biomarcadores e exames de alta complexidade. Esse caminho garante eficiência e evita desigualdades no acesso”, conclui Baeta.
Com o envelhecimento populacional e a sobreposição de fatores vasculares e neurodegenerativos, o AVC e o Alzheimer se consolidam como os principais desafios neurológicos do século. O enfrentamento dessas doenças depende da integração entre prevenção, diagnóstico precoce e terapias que sejam capazes de reduzir sua carga e promover melhor qualidade de vida.
Dr. Alex Machado Baeta – Neurologista Clínico da BP