Etarismo
- Redação Saúde Minuto
- 28/03/2022
- Bem-estar
Pode até ser que alguns não conheçam este termo, mas seu conceito está presente em nosso dia a dia e muito arraigado na sociedade, antes mesmo de criarmos esta nomenclatura. O etarismo consiste no preconceito, na intolerância e na discriminação contra pessoas com idade avançada.
Quem nunca disse ou ouviu:
“Nossa você não aparenta a idade que tem”
“Você não tem idade para isto”
“Desculpe, mas quantos anos você tem?”
Por anos associamos a potência da mulher a sua função reprodutiva e a potência do homem a sua função de provedor; é como se ao chegar aos 60 anos eles perdessem sua função no mundo.
Ambos os gêneros sofrem, só que para as mulheres o preconceito é ainda maior. Por exemplo, sempre foi mais “aceito” socialmente o homem ser mais velho que a mulher, já mulher com parceiro mais jovem era muito mal vista.
Em março de 2021, um relatório da OMS (Organização Mundial da Saúde) alertou que combater o etarismo é um desafio global. A pessoa discriminada sofre ao ser tratada como incapaz e sem valor e isto impacta profundamente sua saúde física e mental. Segundo o IBGE (2019), 13% da população entre 60 e 64 anos sofre com depressão, um número é maior que a porcentagem dos jovens. É comum a naturalização da depressão como parte do envelhecimento, mas isto é mais uma postura discriminatória.
Muitas vezes o humor deprimido, o isolamento, a falta de sentido são reativos ao que a pessoa está enfrentando em seu contexto social e familiar.
Precisamos falar sobre o Etarismo.
Pesquisas apontam que até 2050, uma em cada seis pessoas no mundo terão mais de 65 anos (16%), o envelhecimento da população será uma realidade. Uma sociedade que enxerga o envelhecer como doença dá um tiro no próprio pé. No relatório da OMS, citam que atitudes discriminatórias, além de piorar a saúde física e mental de pessoas idosas, reduzem sua qualidade de vida. Isso custa às sociedades bilhões de dólares a cada ano.
Precisamos falar sobre Etarismo, pois quando nomeamos passamos a reconhecer e só podemos combater o que conhecemos.
Esta discussão já trouxe avanços e garantias de direitos para muitos grupos. Enquanto escrevo, lembro-me da Lei Maria da Penha que coíbe e protege as mulheres da violência.
O envelhecimento é um processo universal e singular, desta forma precisamos garantir respeito, voz e espaço para as pessoas idosas.
Deixa eu te contar a história da Leila (nome fictício): chega ao consultório em busca de psicoterapia aos 70 anos, porque a filha insistia que ela tinha depressão e era muito resistente ao atendimento online. Ao longo do processo, ela se dá conta que não estava doente e sim que precisava fazer uma “revisão de vida”. Foi se libertando de muitas crenças que a imobilizaram e reconfigurando sua vida atual. Consequentemente, os sintomas como dor, insônia, humor deprimido desapareceram. Ela acolheu suas limitações, descobriu potencialidades desta fase de vida e iniciou alguns projetos pessoais.
Algumas crenças como “tenho 70 anos agora não dá para recuperar o tempo” ou “mas eu fui assim a vida inteira” não estão só na história da Leila, mas o etarismo reforça e incentiva esta ideia de que depois dos 60 anos perdemos nossa potência de vida.
A grande poetisa brasileira Cora Coralina começou a escrever aos 14 anos, mas só 1965, com 75 anos, conseguiu realizar o seu sonho de publicar o primeiro livro. E dela o sábio conselho: “O que vale na vida não é o ponto de partida e sim a caminhada. Caminhando e semeando, no fim, terás o que colher.”
Cada fase da existência humana tem seus pontos fortes e fracos e em cada uma delas é possível se desenvolver e criar. Quando encontramos um ambiente acolhedor e somos dedicados no cuidado, o crescimento vem.
Texto por Ana Faustino | Psicóloga
CRP 06/141407