O preço do café para o cérebro
- Igor Markevich
- 26/03/2025
- Ciência e saúde Neurologia Saúde
O café não é apenas uma bebida. Ele é um ritual matinal, um impulso para enfrentar o dia e, para muitos, um verdadeiro combustível para a produtividade. Dos encontros casuais às madrugadas de estudo, a xícara fumegante se tornou sinônimo de disposição e clareza mental. No Brasil, maior produtor mundial, o café está no DNA da cultura e da economia. Mas, enquanto o valor de um cafezinho na padaria pode pesar no bolso, o custo que ele impõe ao cérebro merece ainda mais atenção.
Nos últimos meses, o preço do café no mercado disparou. A alta se deve a uma combinação de fatores, como mudanças climáticas que afetaram a produção, oscilações na economia global e aumento da demanda. Esse encarecimento chega ao consumidor final, tornando o hábito diário mais caro — mas será que o impacto do café se resume apenas ao financeiro?
A cafeína, principal composto ativo do café, tem efeitos profundos no cérebro.
Segundo o neurocirurgião Júlio Pereira, membro dos hospitais Sírio-Libanês e Beneficência Portuguesa, a substância atua como um antagonista competitivo dos receptores de adenosina. “A adenosina é um neuromodulador que promove a inibição neuronal e a sensação de sonolência. Quando a cafeína bloqueia esses receptores, há um aumento na liberação de neurotransmissores excitatórios, como dopamina, norepinefrina e glutamato. Esse mecanismo melhora o estado de alerta, a concentração e reduz a percepção de fadiga”, explica.
Ou seja, o café nos mantém despertos e atentos. No entanto, quando consumido em excesso, o efeito estimulante pode se tornar um problema. “O consumo exagerado leva à hiperestimulação do sistema nervoso central, podendo resultar em neurotoxicidade leve, aumento da liberação de cortisol (hormônio do estresse) e desregulação dopaminérgica, o que pode causar ansiedade, irritabilidade e até tremores”, alerta o especialista.
Café e sono: uma relação turbulenta
Se por um lado o café ajuda a combater o cansaço, por outro ele pode prejudicar o descanso. Como inibe a ação da adenosina, que sinaliza ao corpo a necessidade de repouso, a cafeína interfere diretamente na qualidade do sono. “O ideal é evitar o consumo de café pelo menos quatro a seis horas antes de dormir”, recomenda o neurocirurgião.
Além da insônia, o café pode ter impacto no bem-estar emocional. Pessoas predispostas à ansiedade ou ao estresse podem ver os sintomas exacerbados pelo consumo elevado da bebida. Isso ocorre porque a cafeína estimula o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, aumentando a liberação de hormônios como cortisol e adrenalina, que intensificam a resposta de alerta do organismo.
Enxaquecas e o paradoxo do café
O efeito do café nas dores de cabeça é ambivalente. Em doses moderadas, pode ajudar a aliviar enxaquecas, graças à sua ação vasoconstritora e à potencialização de analgésicos. No entanto, o uso excessivo — ou a suspensão abrupta após um consumo contínuo — pode provocar o efeito contrário. “A abstinência da cafeína pode desencadear cefaleias de rebote, causadas pela vasodilatação compensatória”, aponta Pereira.
Quanto café é demais?
Segundo a FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos Estados Unidos, a quantidade considerada segura para adultos saudáveis é de até 400 mg de cafeína por dia, o equivalente a três ou quatro xícaras de café filtrado. Contudo, pessoas com condições neurológicas específicas devem ter cautela. “Em doenças como epilepsia, a cafeína pode reduzir o limiar convulsivo em doses altas. Já em casos de Parkinson, pode ter um efeito benéfico como estimulante”, diz o neurocirurgião.
Além disso, diferentes métodos de preparo resultam em variações na concentração da cafeína. O café expresso, por exemplo, contém maior densidade da substância por volume do que o café filtrado. O impacto neurológico, no entanto, está mais relacionado à dose total consumida do que à forma de preparo.
Equilíbrio é a chave
O café pode ser um aliado da produtividade e até mesmo da saúde, desde que consumido com moderação. O segredo está na dose: manter-se dentro dos limites recomendados permite aproveitar seus benefícios sem sofrer as consequências do excesso. Afinal, quando se trata da relação entre o café e o cérebro, o verdadeiro preço da bebida vai além do que está na prateleira do supermercado.
Especialista consultado: Doutor Júlio Pereira, neurocirurgião
Texto por: Igor Markevich | Redação Saúde Minuto