Síndrome de Poland, como identificar e quais as causas?
- Igor Markevich
- 19/02/2025
- Bem-estar Saúde
O corpo humano é um sistema incrivelmente complexo e, por isso, às vezes, o desenvolvimento segue um caminho inesperado. A síndrome de Poland é um exemplo disso: uma anomalia congênita e rara — afeta uma a cada cinquenta mil pessoas, sendo mais comum em mulheres — que se caracteriza por uma deficiência do músculo peitoral de um lado do corpo, em alguns casos mais extremos, a ausência total do músculo. Além dessa anomalia, a síndrome pode vir acompanhada de outras características mais raras, como uma mão menor do mesmo lado, dedos colados (sindactilia) ou até alterações de outros músculos na região do tórax nas costelas.
A diferença física pode ser notada logo no nascimento ou se tornar mais evidente na adolescência, quando o corpo se desenvolve e a assimetria fica mais perceptível. Para os homens, a ausência do músculo peitoral pode chamar atenção por conta do formato do tórax. Para as mulheres, a síndrome pode afetar o crescimento da mama do lado afetado, tornando a diferença ainda mais marcante.
O que causa a síndrome de Poland?
O motivo exato ainda não é totalmente compreendido, mas a principal hipótese envolve um problema na circulação sanguínea durante o desenvolvimento do feto no útero. Em determinado momento da gestação, acredita-se que um bloqueio em uma artéria na região do tórax pode impedir que algumas estruturas do corpo se formem completamente, no caso, o músculo peitoral.
De acordo com Dr. Arnaldo Amado Ferreira Neto do Hospital Santa Catarina Paulista, “a teoria mais aceita é que, por volta da sexta semana de gestação, ocorre uma interrupção no fluxo sanguíneo para a região torácica e para o membro superior devido a um desenvolvimento anormal da artéria subclávia ou de seus ramos. Essa falta de irrigação afeta a formação dos músculos da parede torácica, podendo levar à ausência parcial ou completa de músculos como o peitoral maior, peitoral menor e serrátil.”
Embora haja relatos de um possível caráter hereditário autossômico dominante, o médico explica que “a maioria dos casos ocorre de forma esporádica, sem histórico familiar.”
Por que esse bloqueio acontece?
Isso ainda é um mistério. A síndrome de Poland, apesar de ser congênita, – presente no indivíduo desde o nasciment0 – não costuma ter associações genéticas, o que significa que pais sem a condição podem ter um filho com essa alteração sem nenhuma predisposição aparente.
O Dr. Arnaldo esclarece que “o bloqueio arterial ocorre devido a uma hipoplasia da artéria subclávia ou de seus ramos durante a gestação. Essa artéria, responsável por levar sangue para a região do tórax e do braço, não se desenvolve completamente ou sofre uma interrupção temporária no fluxo sanguíneo durante o crescimento do embrião. Como resultado, os músculos, ossos e tecidos que dependem desse suprimento não se formam corretamente, levando às características da síndrome.”
Atrapalha a vida de quem tem a condição?
Na grande maioria dos casos conhecidos, por incrível que pareça, a síndrome de Poland não impacta significativamente nem a força nem a mobilidade do paciente. Outros músculos se adaptam e assumem a função do peitoral, permitindo que a pessoa realize atividades físicas normalmente. Atletas com a síndrome, por exemplo, desenvolvem compensações naturais para manter um bom desempenho.
O maior impacto costuma ser estético, o que pode influenciar a autoestima de algumas pessoas, especialmente na adolescência.
Apesar de possíveis limitações, o médico reforça que “a maioria das pessoas com síndrome de Poland leva uma vida normal, sem prejuízo significativo nas atividades diárias.”
Existe tratamento?
Sim. Embora não haja uma cura que faça o músculo peitoral crescer depois do nascimento, a cirurgia reconstrutiva pode restaurar a simetria do tórax e, no caso das mulheres, equilibrar o tamanho dos seios.
O Dr. Arnaldo explica que “o tratamento é individualizado e depende da gravidade das alterações. Em muitos casos, não há necessidade de intervenção médica, pois a funcionalidade do corpo não é comprometida. No entanto, para pacientes com alterações mais evidentes, existem algumas opções, como:
- Cirurgia reconstrutiva: para melhorar a aparência da parede torácica, reconstruir a mama ou corrigir deformidades ósseas mais severas.
- Próteses mamárias ou expansores teciduais: usados para corrigir assimetrias estéticas.
- Fisioterapia e terapia ocupacional: indicadas para quem tem comprometimento da mobilidade da mão ou do braço, ajudando a melhorar a força e a funcionalidade.
- Acompanhamento psicológico: importante para lidar com questões de autoestima associadas à diferença física.
Em alguns casos, o enxerto de músculo de outra parte do corpo pode ser uma alternativa, não apenas para melhorar a simetria, mas também para recuperar parte da função muscular.”
Mesmo sem comprometer a força ou a mobilidade, a síndrome de Poland pode trazer desafios estéticos que impactam a percepção do próprio corpo. Felizmente, o avanço da medicina oferece soluções para quem deseja corrigir a assimetria.
“O mais importante”, reforça o Dr. Arnaldo, “é saber que essa condição não limita as capacidades de ninguém. O corpo humano é adaptável e, com ou sem um músculo, ele sempre encontra um jeito de seguir em frente.”
Texto por: Igor Markevich | Redação Saúde Minuto | Editado por: Rafaela Navarro
Profissional Consultado: Ortopedista especialista em ombro, Dr. Arnaldo Armado, do Hospital Santa Catarina Paulista